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2026.02.06 cardinale Pierbattista Pizzaballa

Pizzaballa: reconstruir a confiança na Terra Santa com ações e gestos concretos

O Patriarca Latino de Jerusalém participou de um evento organizado pelo Comitê Nacional para o oitavo centenário da morte de São Francisco na igreja de São Francisco a Ripa, em Roma. “As relações entre israelenses e palestinos estão rompidas; levará muito tempo. Para construir a paz, não bastam palavras”. Em seguida, o apelo: “para a comunidade cristã, é fundamental estar presente. Que os peregrinos voltem à Terra Santa”.

Roberto Paglialonga - Vatican News

“Infelizmente, neste momento”, depois do que aconteceu e ainda está acontecendo em Gaza, “é difícil ver uma solução a curto prazo” entre israelenses e palestinos: “as feridas ainda são profundas, as populações estão desorientadas, com uma liderança fraca. Não há uma visão clara do futuro, onde o outro está ao seu lado e, de alguma forma, dentro de você. Uns não querem ouvir falar dos outros, a relação se rompeu, e este é o primeiro ponto a ser considerado e a partir do qual se deve partir”. As palavras do cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca de Jerusalém dos Latinos – que interveio em um encontro na Igreja de São Francisco a Ripa, em Roma, organizado pelo Comitê Nacional para o oitavo centenário da morte de São Francisco –, não são expressão de resignação, mas da consciência concreta de quão difícil é o caminho que leva à reconciliação e à paz.

O 7 de outubro e a guerra em Gaza: “eventos sem precedentes”

O dia 7 de outubro e a guerra que se seguiu “foram eventos sem precedentes”. “E nós também não compreendemos imediatamente a dimensão do que tinha acontecido com o ataque do Hamas e, posteriormente, do que estava prestes a acontecer com a resposta das Forças de Defesa de Israel. Pensávamos em uma retaliação, como tantas outras que haviam ocorrido anteriormente, mas agora todos os parâmetros que conhecíamos haviam sido ultrapassados”, admitiu, em entrevista à correspondente da emissora italiana de TV RAI em Jerusalém, Maria Gianniti. 

Perplexidade sobre o “Board of peace”

E à pergunta sobre o projeto do “Board of peace”, o patriarca expressou sua perplexidade sobre qualquer operação que pareça seguir predominantemente lógicas de proteção e controle dos próprios interesses por parte das grandes potências, sem o reconhecimento efetivo do povo palestino e de seus direitos.

A necessidade de ações concretas

“A paz e a reconciliação”, explicou ele diante de uma plateia que lotava as naves daquela que é considerada a “casa romana” do Pobrezinho de Assis, no coração do bairro de Trastevere, “são, portanto, conceitos belíssimos, mas que correm o risco de permanecer slogans se não forem acompanhados hoje por ações tangíveis, gestos, testemunhos, que mostrem também fisicamente a possibilidade de reconstruir a confiança”. Não será fácil, nem óbvio, mas “devemos estar conscientes de que, antes de tudo, é preciso criar oportunidades de encontro, bem como contextos culturais e sociais que, pouco a pouco, ajudem a pensar de maneira diferente. Palavras não são suficientes”.

Além disso, “é preciso liderança política, mas também religiosa, que, de ambos os lados, tenha um mínimo de visão e não baseie sua autoridade apenas na raiva e na sede de vingança”. Um processo que levará tempo: “enquanto isso, é preciso resistir, convencidos de que não se pode deixar a narrativa nas mãos dos extremistas, sejam eles do Hamas ou colonos. E, para nós, da comunidade cristã, o importante nesta fase é estar presente, permanecendo fiéis a nós mesmos. A Terra Santa nos ensina que ser minoria não é um drama, se temos algo belo e grandioso a comunicar. E nós temos”. É preciso “saber ouvir, para compreender o que a fé nos diz neste momento preciso: no que me diz respeito, minha vida pertence a Deus e a Cristo, por isso foi natural para mim responder sim à pergunta se eu estava disposto a me oferecer em troca dos reféns detidos em Gaza”. Os cristãos podem ser um sinal de unidade, “como foi São Francisco, que se tornou um sinal para todos porque comovido por Cristo”, sublinhou. “Por isso, seu testemunho atravessou os séculos e ainda hoje nos fala”. O Papa Leão XIV, em sua Carta aos ministros gerais da Família Franciscana, lembrou como “sua vida indica a fonte autêntica da paz”.

As quatro vezes na Faixa durante a guerra

Pizzaballa relembrou sua experiência na Terra Santa, desde 1990, quando chegou lá como jovem estudante do Estudo Bíblico Franciscano, até os anos como Custódio e, agora, como Patriarca de Jerusalém dos Latinos. Após as palavras introdutórias e de saudação do Pe. Paolo Maiello, frade franciscano e vigário da Província de São Boaventura, e do poeta Davide Rondoni, presidente do Comitê Nacional para o oitavo centenário da morte de São Francisco, ele deu um testemunho de suas quatro visitas à Faixa durante a guerra.

“A primeira vez, em maio de 2024, foi impressionante não conseguir reconhecer lugares que me eram familiares, ver os olhos das pessoas aterrorizadas com o que estava acontecendo, sentir a emoção das crianças”. A segunda, “pouco antes do Natal do mesmo ano, o cansaço havia tomado conta da população, havia uma desorientação geral, a fome era evidente, a destruição cada vez maior, os hospitais fora de uso”. Em julho de 2025, “foi o momento mais difícil. Entramos após o assassinato de três pessoas na paróquia da Sagrada Família e enquanto o IDF preparava a ofensiva sobre a cidade de Gaza, e fiquei impressionado com os odores, a destruição, a morte. Nunca os esquecerei”. Da última vez, antes do Natal do ano passado, “já se notava um desejo de retomar a vida, vi rostos cheios de dignidade, apesar de tudo o que havia acontecido”. Da ajuda alimentar, “passamos a fornecer medicamentos, principalmente antibióticos, para permitir que os hospitais tratassem as pessoas”.

A situação dos cristãos na Terra Santa

As dificuldades também para os cristãos são consideráveis, destacou ainda o patriarca. “Nossa presença diminuiu drasticamente na Terra Santa desde que cheguei em 1990. Só desde o início da guerra, pelo menos uma centena de famílias partiram de Belém. Infelizmente, muitos não têm mais confiança de que as coisas possam mudar, pelo menos no futuro próximo. Trabalhamos para que todos possam ficar, mas não podemos julgar quem decide não ficar. É preciso muita coragem para ficar”.

Também na paróquia da cidade de Gaza “eles sofreram dores indescritíveis, precisavam de tudo. E, acima de tudo – além das coisas materiais, como comida, água, medicamentos – precisavam de coração, de empatia, que encontraram na proximidade do Papa e de toda a Igreja”. A isso se soma hoje o que está acontecendo na Cisjordânia, em particular por causa dos colonos israelenses. “Na única aldeia cristã, Taybeh, houve um novo ataque há poucos dias; mas contra os palestinos em geral, tanto muçulmanos quanto cristãos, há violência de todos os tipos: eles são impedidos de trabalhar, são privados de suas terras, sofrem assaltos armados e atos de vandalismo, suas casas são devastadas, demolidas ou confiscadas”. “Nossas 13 escolas em Jerusalém”, lembrou ainda o cardeal, “têm problemas constantes com as autorizações dos professores que vêm, em particular, de Belém. E é cansativo ter que trabalhar todos os dias por coisas que parecem aparentemente banais, direitos que já deveriam estar garantidos”.

A solução dois povos, dois Estados

Quanto à solução “dois povos, dois Estados”, o cardeal admitiu como é complicado pensar e concretizá-la, no momento atual, “mas é algo em que se deve trabalhar, os palestinos têm o direito de se sentir um povo e de ter um Estado. Até mesmo afirmar essa possibilidade é um ato de justiça, é ajudá-los a continuar cultivando o sonho de ter um dia uma casa só para eles”. 

O apelo às peregrinações

Por fim, um apelo ao retorno dos peregrinos. “É hora de voltar. Chega de emergências, é hora de ter coragem. É possível vir à Terra Santa, é preciso fazê-lo; Belém e Jerusalém são seguras. Agora precisamos ver que a Igreja e a comunidade cristã estão presentes, também fisicamente”, conclui. Além disso, “é também um ato para dizer aos palestinos e israelenses que nós também estamos nesta terra, que também temos nossas raízes aqui”.

Durante a noite, acompanhada por interlúdios musicais do duo órgão-tenor, foi também lançada a campanha de arrecadação de fundos da “Fondazione Italia per il dono” para um projeto em Jerusalém intitulado “Christian Women and Youth Empowerment”, que tem como objetivo promover o emprego de mulheres e jovens cristãos da região, permitindo também o desenvolvimento de iniciativas empresariais.

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07 fevereiro 2026, 11:52