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Entre o abandono e o isolamento, moradores resistem em bairros que se tornaram áreas fantasmas. (©Pablo Albarenga) Entre o abandono e o isolamento, moradores resistem em bairros que se tornaram áreas fantasmas. (©Pablo Albarenga)  (©Pablo Albarenga)

O grito que vem do chão: Arquidiocese de Maceió lança CF 2026 em meio a uma tragédia humanitária

Entre o afundamento do solo e o isolamento social, a crise provocada pela mineração em Maceió acumula prejuízos imateriais e tragédias familiares que ecoam o tema da moradia e justiça

Pe. Rodrigo Rios – Cidade do Vaticano

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Maceió, capital das águas e conhecida internacionalmente por sua costa de corais, assiste hoje a um paradoxo que fere o Evangelho: enquanto o mar brilha, o solo sob os pés de milhares de pessoas afunda. Em um gesto de profunda solidariedade, a Arquidiocese de Maceió lançou a Campanha da Fraternidade (CF) 2026 no bairro do Bom Parto, território marcado pelas cicatrizes abertas pela mineração da Braskem, na quarta-feira de cinzas. 

Com o tema "Fraternidade e Moradia" e o lema bíblico "Ele veio morar entre nós" (Jo 1,14), a CF 2026 deixa de ser teoria em Maceió para se tornar uma ferida exposta. O crime ambiental que forçou a desocupação de vários bairros, é a antítese real do que a Igreja proclama este ano.

“A fraternidade pressupõe esse senso de responsabilidade. A indiferença é um pecado grave. A dor do outro não dói em mim: esse é o mal do nosso tempo", destacou Dom Carlos Alberto, arcebispo metropolitano, durante a abertura. O prelado reforçou a importância das questões sociais serem abordadas durante a quaresma.

O retorno ao Bom Parto

A escolha do local carrega simbolismo pessoal e institucional. Foi no Bom Parto que dom Carlos Alberto, frei da Ordem dos Frades Menores (OFM), celebrou sua primeira missa ao chegar como arcebispo coadjutor. Retornar à localidade, agora em meio aos escombros e ao êxodo forçado, é um convite para que a sociedade não esqueça o problema que persiste. Em sua homilia, ele ressaltou: “Quando um lugar é destruído, não são apenas casas; são histórias e relações que se perdem”.

Em meio ao cenário de abandono deixado pela mineração, dom Beto levanta o tom contra o isolamento social e as consequências negativas nos bairros atingidos (© Carlos Wilker)
Em meio ao cenário de abandono deixado pela mineração, dom Beto levanta o tom contra o isolamento social e as consequências negativas nos bairros atingidos (© Carlos Wilker)

Tragédia humanitária

A tragédia em Maceió não derrubou apenas paredes; soterrou a vontade de viver. Entre os casos mais dramáticos, destaca-se o de uma idosa, Dona Pureza, moradora da comunidade dos Flexais que, no final de 2024, tirou a própria vida. Em um bilhete escrito à mão, ela deixou o testemunho final de sua angústia: "Cada vez que vejo os benefícios da Braskem, a minha desilusão aumenta. Estou cada vez mais depressiva em saber que vou ficar nesse isolamento para sempre".

O episódio gerou profunda comoção, pois incluiu o falecimento de sua filha, Elenilma Silvestre de Souza, de 40 anos. Ela, que tinha deficiência intelectual, morreu pouco tempo depois da mãe, em um desdobramento trágico relatado pelo Movimento Unificado das Vítimas da Braskem (MUVB).

Segundo o MUVB, o número de tentativas e suicídios consumados desde 2018 já ultrapassa as dezenas. A entidade afirma que milhares de moradores das chamadas áreas de monitoramento ou regiões isoladas ainda lutam por indenizações justas e sofrem com a falta de serviços básicos, evidenciando que a crise humanitária está longe de uma solução definitiva.

Crime ambiental urbano

O desastre geológico causado pela mineração de sal-gema é considerado por estudiosos como o maior crime ambiental em área urbana do mundo. O balanço é desolador: 14 mil imóveis desocupados e cerca de 60 mil pessoas deslocadas. Segundo dados da Defesa Civil de Maceió e do Ministério Público Federal (MPF), cinco bairros foram severamente atingidos: Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol, transformando áreas residenciais em bairros-fantasmas. O fenômeno de subsidência (afundamento do solo), que provocou rachaduras estruturais, atingiu um ponto crítico em dezembro de 2023, quando a mina 18, na região do Mutange, sofreu um rompimento parcial após semanas de monitoramento intensivo, conforme registrado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB).

Atualmente, o impacto financeiro e social é monitorado por órgãos de controle que acompanham o cumprimento do Termo de Acordo para Apoio na Desocupação das Áreas de Risco. Até o último balanço oficial divulgado pela Braskem em seus relatórios de monitoramento de 2024, mais de 99% das famílias das áreas de criticidade 00 (zona de maior risco) já foram realocadas, e cerca de R$ 10 bilhões foram provisionados para compensações financeiras e ações socioambientais.

Um Convite à ação

Para selar o compromisso prático da Igreja, a CF 2026 direciona esforços para o Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), alimentado pela Coleta da Solidariedade, que será realizada no dia 29 de março. Os recursos financiarão projetos sociais focados no direito ao teto e na dignidade habitacional.

Ao concluir seu apelo, dom Carlos Alberto convocou a memória afetiva da cidade: “Lembremos da casa onde nascemos e crescemos, dos vizinhos, do comércio local. Isso tudo foi destruído de uma hora para outra. São vínculos, relações de afeto e histórias de vida que foram cavadas pela ganância e pelos comparsas dos gananciosos”.

*Com informações da Pascom arquidiocesana de Maceió

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24 fevereiro 2026, 12:23