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Cardeal Jean-Paul Vesco, arcebispo de Argel Cardeal Jean-Paul Vesco, arcebispo de Argel 

Cardeal Vesco: "É maravilhoso que esta etapa marque o início da primeira viagem à África"

O arcebispo de Argel partilha a sua reação após o anúncio oficial da visita do Papa Leão XIV à Argélia, de 13 a 15 de abril. Uma visita a um país que serve de porta de entrada para o continente africano e onde a pequena Igreja, tal como o povo argelino, se mostra resiliente.

Jean-Charles Putzolu - Cidade do Vaticano

Nomeado arcebispo de Argel em 2021 pelo Papa Francisco, e após nove anos à frente da Diocese de Oran, o cardeal Jean-Paul Vesco receberá o Papa Leão XIV no dia 13 de abril, durante a primeira etapa de sua viagem ao continente africano.

Na entrevista à Rádio Vaticano/Vatican News, o purpurado dominicano reflete sobre a alegria que esta visita proporciona a um país que tem uma longa história de sofrimento.  Uma visita que terá um forte significado simbólico, seguindo os passos de Santo Agostinho, mas também na terra dos mártires, de Pierre Claverie e dos monges de Tibhirine.

Como o senhor recebeu a notícia da visita do Papa?

É uma notícia que estávamos esperando. Há muito tempo que desejávamos que ele viesse. Convidamos Francisco várias vezes, e então Leão acabou aceitando imediatamente. O que é maravilhoso é que esta é uma de suas primeiras viagens; ele a tinha em sua agenda desde o início. Acho que é um belíssimo sinal de abertura por parte do Papa, das autoridades, de todos. E precisamos disso. Depois da Turquia, um país muçulmano, e do Líbano, um país com uma grande maioria muçulmana, aqui está o terceiro país: Argélia. Isso diz algo sobre o pontificado de Leão XIV. E mostra que, nesse aspecto, ele está realmente seguindo os passos de seu antecessor, Francisco, e de fato de todos os seus antecessores. Acho que isso diz algo belo sobre a Igreja. O mesmo aconteceu com o Papa Bento XVI e com João Paulo II.

Há um forte significado simbólico nesta viagem, porque ele visitará os lugares ligados ao Bispo de Hipona…

Há muito simbolismo nesta viagem. Esse será o objetivo principal. É uma viagem simples — a comunidade cristã é pequena — mas, de fato, ele está seguindo os passos de Santo Agostinho. Ele já havia visitado duas vezes como Superior Geral da Ordem Agostiniana, mas desta vez é como Papa. Quem poderia imaginar em 430, quando Santo Agostinho estava doente e à beira da morte, quando os vândalos estavam presentes, quando a cidade de Hipona estava prestes a ser capturada e saqueada, que dezesseis séculos mais tarde, um Papa com sua espiritualidade viria a esta cidade de Hipona, hoje Annaba? É verdadeiramente uma fonte de esperança fenomenal a longo prazo.

Depois, há também os 19 beatos da Argélia. Leão XIV foi eleito no dia da sua festa litúrgica, como lhe mencionei, quando lhe disse que era esperado na Argélia. E, obviamente, para ele, isto tem um forte ignificado por causa dos monges de Tibhirine, de Christian de Chergé, há significado nisso. Na sua mensagem de 1° de janeiro, para o Dia Mundial da Paz, citou uma frase de Christian de Chergé, o prior dos monges de Tibhirine: “Senhor, desarma-o, desarma-me, desarma-nos”. Foi essa a frase que repetiu. Isto também tem significado porque a Argélia é uma terra numa encruzilhada, em linhas de fratura, como disse o bispo Pierre Claverie. A Argélia é também um ponto de encontro entre o Norte e o Sul. Estamos verdadeiramente lá, entre o Norte e o Sul, com todas as questões da migração. Estamos entre o mundo ocidental e o mundo árabe-muçulmano. Este é o ponto de contacto. Estamos na porta de entrada para África. E é belo que este contexto marque o início da primeira viagem à África. O Norte de África é uma porta de entrada para todo o continente. Tudo isso faz sentido. Haverá um encontro com a comunidade cristã e seus amigos em Notre-Dame d'Afrique. E foi de lá que partiram os Padres Brancos e as Irmãs Brancas. Foi também de lá que o Evangelho começou na África; foi um dos pontos de partida. Haverá muitos símbolos simples, e então trata-se simplesmente de encontro humano, fraternidade. É um sinal de reconhecimento para com a nossa Igreja, que é uma Igreja que busca estar em conexão com o povo argelino, tanto cristãos quanto muçulmanos. E eu acho que esta jornada será marcada pela fraternidade.

“Temos necessidade de diálogo inter-religioso. Fundamentalmente, o que almejamos e o que o mundo precisa é de um diálogo de vida”

O senhor falou de continuidade com os Pontificados anteriores. Encontramo-nos em uma linha muito próxima à de Francisco. Porque, na Argélia, ainda estaremos na costa do Mediterrâneo, e sabemos o quanto o Papa Francisco se apegou a ela. Leão XIV também estava nessa mesma linha?

Sim, absolutamente. É de fato também a costa do Mediterrâneo. Ao continuarmos a cultivar este caminho, algo acontecerá. Esta civilização mediterrânica é um tesouro. O Mar Mediterrâneo, Mare Nostrum, não deveria ser uma fronteira. Contudo, hoje é uma fronteira, é também um véu. Não foi concebido para isso. Em todo o Mediterrâneo, vemos a mesma fauna, a mesma flora, as mesmas culturas. Da mesma forma, seja muçulmano ou cristão, existe a mesma forma de espiritualidade popular, de religiosidade popular. Basta viajar um pouco para norte, sul, leste ou oeste para que tudo mude muito rapidamente em apenas algumas dezenas de quilómetros. Mas o Mediterrâneo em si é um todo unificado. É uma cultura que se mistura com outras e é gentil. E depois, a próxima viagem, a Mônaco, será novamente pelo Mediterrâneo. Depois de África, o Papa irá a Barcelona e Madrid. E lá, haverá um encontro dos bispos do Mediterrâneo. De facto, também neste ponto, Leão está a seguir os passos do Papa Francisco.

A Igreja na Argélia também é uma Igreja de mártires, uma Igreja que pagou com o próprio sangue pelo seu compromisso de continuar a proclamar o Evangelho. Neste contexto, o diálogo inter-religioso ainda pode ter o seu devido lugar neste país?

É um diálogo de vida. Precisamos de diálogo inter-religioso. Fundamentalmente, o que almejamos, e o que o mundo precisa, é de um diálogo de vida. Trata-se do encontro de pessoas, e a diferença religiosa só pode ser uma mais-valia. E se for uma barreira, só terá a importância que lhe atribuirmos. Hoje, a nossa Igreja pagou com o próprio sangue pelo seu desejo de permanecer com o povo, com o povo a quem foi enviada quando esse povo sofria. E o povo da Argélia foi martirizado. Verdadeiramente foi, durante aquela década sombria, durante a Guerra da Independência. É um povo martirizado, isso é verdade. E é também um povo resiliente. E a nossa Igreja é igual; enfrentou provações e é resiliente. De fato, 19 vidas foram ceifadas. Mas a beatificação desses 19 foi um testemunho de uma Igreja que permaneceu fiel e que se arriscou para sê-lo. É por isso que esse testemunho permanece vivo hoje. Permaneçamos unidos nos momentos de provação, permaneçamos juntos. É um belo testemunho para os dias de hoje, do qual me orgulho imensamente.

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27 fevereiro 2026, 10:43