Dom Skomarovsky: “Os ucranianos nada mais querem que chegue a paz"
Svitlana Dukhovych – Cidade do Vaticano
Esta mensagem de paz surge em um contexto de conflito prolongado, como afirmou à mídia vaticana, o arcebispo Vitaly Skomarovsky, presidente da Conferência Episcopal de Rito Latino na Ucrânia, sobre o conteúdo da Mensagem de Leão XIV para o Dia Mundial da Paz: “Se esta guerra não existisse ou estivesse longe de nós, acho que a leitura e a percepção desta mensagem seriam diferentes. No entanto, o Papa indica uma direção a seguir, ou seja, a de uma paz completa, baseada na confiança e na fraternidade. Apesar dos horrores que não poupam nem as crianças, a mensagem do Papa também representa uma esperança: ‘no final, o bem sempre vencerá; por isso, vale a pena lutar’!”.
Dom Vitaly, o que lhe inspiram as palavras de Leão XIV?
“No dia 1º de janeiro, toda a Igreja Católica reza pela paz. Não é por mero acaso que este dia ocorre no final da Oitava de Natal, porque Jesus é o Príncipe da Paz, que leva a paz onde não existe.
Em primeiro lugar, gostaria de dizer que o Santo Padre escreveu esta mensagem em um momento muito difícil, porque, como ele recorda, ao citar as palavras de seu predecessor, uma espécie de ‘Terceira Guerra Mundial em pedaços’ está em andamento: há muitas guerras e conflitos no mundo. No entanto, gostaria de enfatizar que o Papa Leão XIV escreve a sua mensagem como pastor, sacerdote, autoridade moral. Claro, também existem muitas vozes que falam, como os políticos, que falam de paz à sua maneira. Porém, o Santo Padre não quis que faltasse a voz de Deus neste coro. Na minha opinião, ao lermos esta mensagem, não devemos esquecer que não se trata de um texto político, mas pastoral, ou seja, a palavra de quem escuta a voz de Deus e a transmite e a leva ao povo. O Papa fala, por exemplo, de uma paz desarmada, uma paz que vem de Jesus ressuscitado. Trata-se de uma paz possível quando, juntos, acolhemos Jesus ressuscitado. A paz desarmada nasce onde reinam confiança e amor entre as pessoas; uma afirmação muito clara. Mas, quando tudo isso falta, acontece a chamada paz política, que se baseia no equilíbrio de armas e em outras lógicas semelhantes. Porém, devemos saber, que esta é uma paz frágil, como o Papa recorda. No mundo de hoje, - para usar as palavras do Papa - reinam as relações irracionais entre os povos, que vemos e percebemos: as promessas e palavras dos políticos, muitas vezes, não têm valor, porque o direito internacional é violado e todo o sistema de direito internacional, construído com tanto esforço ao longo do tempo, é comprometido pela agressão da Rússia. Não sei como o mundo poderá remediar isso, pois se trata de um precedente que, certamente, terá consequências a longo prazo. Além disso, com os armamentos atuais, ninguém pode oferecer garantias reais, já que, como vemos, certas pessoas podem chegar ao poder, às vezes, até as que desrespeitam a vida de modo irresponsável. Por outro lado, devemos lembrar também que nós, ucranianos, lemos esta mensagem em uma situação de guerra, enquanto defendemos nossa pátria. Trata-se de uma perspectiva diferente, por exemplo, se não existisse a guerra ou se estivesse longe de nós. Logo, a leitura e a percepção desta mensagem seriam diferentes.
Em segundo lugar, o Papa aponta para uma direção que devemos seguir. Embora a guerra continua e a situação seja difícil, ele nos convida a não nos esquecermos do caminho para a verdadeira paz. Por isso, precisamos de pessoas como São Francisco, que podem personificar as palavras de Deus sobre a paz — uma paz plena, baseada na confiança e na fraternidade entre os homens.
Enfim, notei na mensagem do Papa que ele observa o seguinte: hoje, as palavras e os pensamentos se tornaram armas; de modo especial, uma nova realidade com as guerras de informação, que estamos presenciando. Logo, estamos passando por tempos muito difíceis, mas, na minha opinião, esta mensagem também nos traz esperança: ‘no final, o bem sempre vencerá! Por isso, vale a pena lutar”.
É possível cultivar esta paz no coração, a paz que vem de Cristo ressuscitado, mesmo em meio à guerra?
“Certamente, porque a paz interior é um dom de Deus e Deus não abandonou os ucranianos. Claro, não é fácil: estamos passando por momentos dolorosos; tivemos tantas perdas e muitas pessoas estão preocupadas consigo mesmas, com seus entes queridos e com a própria segurança. Esta situação perdura há tanto tempo e isso leva um ucraniano a estar cientes de que não existe um lugar completamente seguro em nossa terra. Na verdade, não existe um lugar assim em nenhum canto do mundo; mas, em tempos de guerra, isso se torna mais importante e bem mais sentido. Infelizmente, porém, tivemos que aprender a conviver com isso. Contudo, a paz de espírito não depende de circunstâncias externas: é uma dádiva de Deus, sem a qual a vida seria bem mais difícil. A paz de espírito baseia-se na confiança em Deus, que cuida de nós, como também nos relacionamentos com os outros. Tentamos impedir que sentimentos negativos, como o desejo de vingança, o ressentimento ou o ódio, tomem conta de nossos corações; mas Deus nos conforta para que o amor aos nossos entes queridos e por nossa pátria permaneça sempre forte”.
Em sua mensagem, Leão XIV dirige “seu pensamento às crianças, nossos filhos e os que são mais frágeis, a ponto de nos comover profundamente"... palavras que podem ser dirigidas, de modo particular, às crianças ucranianas...
“Exatamente, porque as crianças não têm nenhuma culpa de tantos sofrimentos e quanto sofrem, sobretudo, por perderem seus pais, durante a guerra: tais perdas as afetam profundamente e terão graves consequências no futuro. Infelizmente, devemos reconhecer também que o mal e o pecado reinam no mundo. Notamos que, apesar do sofrimento de crianças inocentes, tantos corações se endureceram a ponto de nem se abalar com o que está acontecendo. Talvez, seja por isso também que a Mãe de Deus nos convida a rezar pela conversão dos pecadores, cujo pecado reside, de modo particular, nos corações mais endurecidos, que nem diante de tantos sofrimentos, pode cessar a guerra na Ucrânia. Os ucranianos, como já dissemos, tantas vezes, nada mais querem que o fim desta guerra e que haja paz e serenidade”.
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