São Vicente Pallotti, precursor do Concílio Vaticano II
Fr. Bruno Coelho Gonçalves, SAC
Segundo Frei Patrício Sciadini, OCD, “os santos chegam sempre antes das inúmeras decisões e orientações da Igreja. Eles intuem o futuro e corajosamente lançam-se à batalha. Se acompanharmos com atenção a vida e a espiritualidade de Vicente Pallotti, descobriremos uma linha de pensamento e um coração. [...] Assim, podemos considerá-lo o santo e o apóstolo que precedeu com sua intuição o Concílio Vaticano II”. Tal intuição em São Vicente Pallotti se verificou no convite a todos a fazerem parte do apostolado universal de Cristo, na condição em que cada qual se encontrasse, enquanto batizados, para a que glória de Deus se manifestasse em toda a humanidade, a qual denominou Apostolado Católico.
O ideal do Apostolado Católico em meados do século XIX causou estranheza no tecido eclesial da época. Vicente Pallotti ao afirmar que todo batizado é um apóstolo e missionário, expressando na prática o trabalho conjunto em prol da evangelização e da salvação das almas, com um grupo que unia diversas pessoas dos mais variados estados de vida, trouxe uma nascente inspiração que não tardou em oferecer seus frutos para a Igreja. Insta salientar que Vicente Pallotti ansiava a convocação de um Concílio que pudesse trazer à vida da Igreja um renovado ardor que atendesse aos sinais dos tempos.
Numa carta datada de junho de 1849, endereçada ao Cardeal Macchi, decano do colégio episcopal à época, Vicente Pallotti de modo profético, ao relatar a preocupação com as chagas presentes na Igreja, indicava que os sucessores dos apóstolos e o Sumo Pontífice, seguindo os passos de Jesus Cristo, o divino samaritano, se aproximassem da Igreja, para mediante um concílio ecumênico, enfaixasse as suas feridas e depois derramasse sobre elas o óleo e o vinho da graça do Salvador. É sabido que anos depois, em 1869, a Igreja vivenciara o I Concílio realizado no Vaticano, conquanto, durou este apenas um ano e não conseguiu abranger todas as inquietações que o período colacionava.
Com a advento do Concílio Ecumênico Vaticano II, quis o desígnio divino que as ideias de Pallotti tivessem eco, o qual mostrou-se confirmado, por meios de seus documentos, entre eles Lumen Gentium e Apostolicam Actuositatem o ideal do chamado universal à santidade e ao apostolado dos leigos.
A ligação de Vicente Pallotti com o Concílio Vaticano II se mostrou tão pertinente, que a sua canonização se deu cerca de três meses após a abertura oficial deste salutar momento da Igreja, por São João XXIII. Este, em seu discurso na Basílica Vaticana, em 20 de janeiro de 1963, afirmou que: “O fato deste extraordinário evento, a canonização de Vicente Pallotti, ocorrer nesta época significativa em que tem lugar o Concílio Ecumênico permite esperar, com razão, que dele se brotem ricas e frutuosas bênçãos. Nós confiamos, pois, firmemente, que este homem, por sua admirável virtude e por seu incansável zelo [...] ainda consiga entusiasmar muitos a buscar a renovação da vida cristã, para a qual esta grande hora da Igreja a todos convoca”. Vicente Pallotti, pois, segundo São João XXIII, se tornou um grande intercessor pela causa do Concílio Vaticano II, creditando que seu exemplo de vida entusiasme não só os Padres Conciliares, mas toda a Igreja ao espírito de renovação ou aggiornamento, como dissera na abertura do Concílio em 1962.
Nesta esteira, São Paulo VI, em setembro de 1963, em discurso na cidade de Frascati, assim se expressou: “O nosso santo, Vicente Pallotti, percebeu, e este é o toque genial de sua instituição religiosa e social, que também o leigo pode ocupar um lugar ativo no Igreja. Esta é uma ideia que cresceu e se desenvolveu sempre mais, até desembocar na Ação Católica, movimento religioso laical, que hoje integra a fisionomia da Igreja”. Vê-se, outrora, que o Santo Padre Paulo VI reconheceu a importância de Vicente Pallotti no desenvolvimento de uma eclesiologia imbricada a que o Vaticano II oferecia a toda a Igreja, principalmente no papel do cristão leigo na missão evangelizadora.
São João Paulo II também teceu comentários que expressam a proximidade de São Vicente Pallotti e do carisma palotino com o Concílio Vaticano II, em sua visita à Casa Geral dos Palotinos em junho de 1986. Na ocasião, João Paulo II fez lembrança do trabalho em conjunto que tivera com Pe. Guilherme Möhler na preparação do decreto sobre o apostolado dos leigos, Apostolicam Actuositatem, na qual, nos dizeres do Pontífice, “se encontra a solene confirmação da validade da ideia do Apostolado Católico, intuída e proclamada já no século passado por Vicente Pallotti”, bem como encoraja os palotinos do mundo todo a perseverarem no carisma deixado por este exímio santo romano, que se mostra atual e ligado aos ensinamentos conciliares: “Continuai a multiplicar o vosso empenho [diz o Papa] a fim de que, aquilo que de maneira profética foi anunciado por Vicente Pallotti e com autoridade foi confirmado pelo Concílio Vaticano II, se torne uma feliz realidade, e todos os cristãos sejam autênticos apóstolos de Cristo na Igreja e no mundo”.
Portanto, resta confirmado o valor e a atualidade do carisma palotino no seio da Igreja, expresso nas linhas e entrelinhas do Concílio Vaticano II, herança esta deixada por São Vicente Pallotti ao captar os sinais dos tempos de sua época. Todo palotino deve sentir com a Igreja. O contrário é inconcebível.
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