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Em 2033, cristãos são convidados a peregrinar em comunhão a Jerusalém

Dentro de sete anos, a Igreja e o mundo comemorarão os 2 mil anos da Redenção, consumada pela Paixão, morte e Ressurreição de Cristo. Em novembro, em Niceia, juntamente com os líderes das Igrejas cristãs, o Sucessor de Pedro convocou este Jubileu sob a forma de uma grande peregrinação ecumênica a Jerusalém. Um evento inédito na história da Igreja, cujos preparativos refletirão seu significado e alcance. Entrevista com o Pe. Frans Bouwen, figura chave do ecumenismo na Terra Santa.

Delphine Allaire - Cidade do Vaticano

Entre dois quartos de século, um ano entre dois Papas. Em 2025, a Igreja Católica celebrou seu Jubileu da Esperança, atraindo mais de 33 milhões de peregrinos à Cidade Eterna. Fechando as pesadas portas de bronze que seu antecessor, Francisco, havia aberto mais de um ano antes na Basílica de São Pedro, Leão XIV concluiu este Ano Santo na Festa da Epifania, já tendo semeado algumas sementes para o próximo.

O anúncio do Pontífice agostiniano a este respeito foi em Niceia, em novembro passado, durante sua primeira Viagem Apostólica ecumênica, convidando todos os líderes das igrejas cristãs "a percorrerem juntos o caminho espiritual que leva ao Jubileu da Redenção em 2033, com vistas ao retorno a Jerusalém, ao Cenáculo". Um caminho que leva à plena unidade, de acordo com o lema papal episcopal "In Illo Uno Unum" (“Nele que é Um (Cristo), nós somos Um”).

Este aniversário fundamental para todos os cristãos já se fazia presente com a publicação da Bula de Proclamação para o Jubileu Ordinário de 2025. “Este Ano Santo orientará o caminho rumo a outra data fundamental para todos os cristãos: de facto, em 2033, celebrar-se-ão os dois mil anos da Redenção, realizada por meio da paixão, morte e ressurreição do Senhor Jesus. Abre-se, assim, diante de nós um percurso marcado por grandes etapas, nas quais a graça de Deus precede e acompanha o povo que caminha zeloso na fé, diligente na caridade e perseverante na esperança”, escreveu o Papa Francisco na Spes non confundit.

Como abordar um itinerário tão inspirador como a celebração de vinte séculos desde a Redenção da humanidade? Para responder, entrevistamos o Pe. Frans Bouwen, missionário belga dos Padres Brancos, que dedicou mais de meio século de sua vida ao ecumenismo na Terra Santa, notadamente por meio da presidência da Comissão Episcopal para o Diálogo Ecumênico do Patriarcado Latino de Jerusalém.

O Jubileu da Redenção será celebrado daqui a sete anos. Em Niceia, em 2025, o Papa Leão XIV convocou uma peregrinação de todos os cristãos a Jerusalém para celebrar os 2 mil anos da Ressurreição. Como o senhor recebeu essa notícia?

O anúncio dessa celebração do Jubileu da Redenção em 2033 surpreendeu a muitos, inclusive a mim. Este anúncio tão significativo me enche de alegria e me faz sonhar e ter esperança. Primeiro, por causa do momento único do anúncio: as celebrações do 17º centenário do Concílio, primeiro na antiga Niceia e depois em Istambul. Ao celebrar o Credo Niceno como fundamento da fé cristã comum a todas as Igrejas, o anúncio da peregrinação de 2033 volta nossa atenção para os eventos salvíficos que estão no coração dessa fé: a Encarnação e a vida de Jesus, sua Paixão e morte e sua Ressurreição. É perfeitamente apropriado que Jerusalém, o lugar onde esses eventos aconteceram, seja o foco desta iniciativa. É também significativo porque foi realizado durante um encontro com os líderes das Igrejas reunidos em torno do Papa para esta celebração em Niceia. Eles se sentaram em torno de uma mesa redonda em espírito de fraternidade e colegialidade. Será importante que todos os preparativos para as celebrações de 2033 sejam feitos nesse mesmo espírito de fraternidade, por consenso comum, como uma peregrinação sinodal ecumênica.

Papa Leão XIV no encontro privado com líderes cristãos em Istambul
Papa Leão XIV no encontro privado com líderes cristãos em Istambul   (ANSA)

Qual é o significado espiritual deste retorno original a Jerusalém? Tem um caráter profético?

O retorno a Jerusalém, como qualquer peregrinação a Jerusalém, é antes de tudo uma renovação, um retorno às nossas raízes comuns. O Papa Paulo VI teve essa mesma intuição e esse mesmo desejo no início de seu pontificado, quando fez peregrinação à Terra Santa e a Jerusalém em janeiro de 1964. Seu ardente desejo era enraizar firmemente o Concílio Vaticano II e, por meio do Concílio, a própria Igreja, no mistério que está na origem de sua fundação e de sua missão. É nesse espírito que todos somos convidados a viver nossa jornada rumo a 2033.

Havia também essa dimensão ecumênica imediata. Esse encontro inaugurou uma nova era na relação entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa. O Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras são descritos como os discípulos de Emaús, renovados pelo encontro com o Senhor ressuscitado. Seu beijo de paz tornou-se como uma imagem, quase um ícone, uma promessa para sua caminhada comum rumo à plena comunhão. Nesse sentido, o beijo da paz é um gesto profético. O mesmo pode ser dito da peregrinação de 2033? Tudo dependerá de sua autenticidade. Quando essa peregrinação começar, e muito antes de sua chegada, será um sinal e uma recordação da renovação e do renascimento de todos. Será também um sinal muito poderoso para os católicos, estendendo o Jubileu da Esperança em 2025.

Não houve Jubileu em 1033, sendo o primeiro Ano Santo o de 1300. No entanto, em 1933 e 1983, Pio XI e João Paulo II acrescentaram Anos Santos Extraordinários para celebrar a morte e ressurreição de Cristo, iniciativas que foram essencialmente católicas. Será 2033 o primeiro ano que unirá todos os cristãos?

Sim, e essa é a nossa grande esperança. Este é um sinal de que nossas Igrejas percorreram um longo caminho e caminharam juntas. Um caminho de encontro que começou sob a guia do Espírito Santo. Para nós, católicos, Jerusalém 1933 marcou a criação, pela primeira vez, da grande procissão do Domingo de Ramos, que ainda hoje marca o início da Semana Santa em Jerusalém. Creio que, se as nossas Igrejas puderem fazer esta peregrinação juntas rumo a 2033 e chegar ao lugar central da fé cristã, será algo novo, uma grande esperança, e, neste sentido, poderá tornar-se um sinal profético, de acordo com a sua autenticidade.

Será este jubileu um horizonte credível para alcançar a plena unidade visível dos cristãos?

Confiemos no Espírito Santo. A caminhada rumo ao horizonte de 2033 tem sido ecumênica desde o seu anúncio. Devemos agora considerar como assegurar e nutrir esta dimensão ecumênica nos próximos anos de preparação. Parece-me importante que esta reflexão e a oração que a acompanha sejam feitas em conjunto com outras Igrejas e organizações ecuménicas, para que esta peregrinação partilhada possa contribuir para fomentar a compreensão, a aceitação e a colaboração mútua ao longo da preparação, enquanto caminhamos juntos. O Papa Francisco gostava de dizer que a unidade se alcança caminhando juntos. Confio no Espírito Santo que, ao longo desta caminhada, nos ajudará a discernir o que é possível à medida que nossas Igrejas avançam juntas, seja no ensino, no cuidado pastoral ou, em certos momentos, em circunstâncias excepcionais, por meio da participação conjunta nos sacramentos. Este seria um testemunho compartilhado significativo e profético.

“A caminhada rumo ao horizonte de 2033 tem sido ecumênica desde o início. Devemos agora considerar como assegurar e nutrir essa dimensão ecumênica nos próximos anos de preparação.”

Como os cristãos podem se preparar para a peregrinação rumo a tal evento? Que mobilizações e iniciativas podemos esperar?

As modalidades dessa preparação devem ser estabelecidas e decididas de maneira ecumênica, inclusive sinodal, em contato com as Igrejas. Grupos de trabalho devem ser criados para esse fim, tanto local quanto globalmente. Darei ênfase especial à Jerusalém, o destino final desta peregrinação. É crucial estabelecer contato sem demora, mas devemos determinar como e por meio de quem, e considerar cuidadosamente o processo, com os patriarcas e chefes das Igrejas cristãs em Jerusalém. Dado que o Patriarca greco-ortodoxo de Jerusalém é reconhecido por todos, esses contatos poderiam começar com ele. Isso não acontecerá abruptamente. Devemos estudar como proceder, mas a Igreja de Jerusalém deve ser envolvida o mais breve possível para avaliar as opções disponíveis. Vir a Jerusalém significa nos vermos como hóspedes acolhidos pela Igreja de Jerusalém, a Igreja Mãe, ainda que uma Igreja pobre e pequena, um pequeno rebanho.

Estas datas, que literalmente moldam a história da salvação e da humanidade, podem nos fazer sentir muito pequenos. Com que espírito devem ser abordadas?

Já que ainda não estamos distante do Natal, eu diria no espírito da Encarnação. Em seu Filho, o Verbo, o Pai entrou na história humana e deseja, dentro dessa história, inaugurar seu reino. O Pai não esperou que o mundo fosse perfeito, que estivesse em perfeita paz, antes de enviar seu Filho. Foi um tempo difícil. Ainda é um tempo difícil hoje, dada a situação do mundo. É nesse espírito que somos convidados a avançar passo a passo na história da humanidade e do mundo, irradiando o testemunho da esperança, a esperança da presença de Deus e, sobretudo, em meio a tudo o que o nosso mundo vivencia hoje em termos de morte e injustiça, um testemunho da ressurreição, isto é, da vitória sobre a morte. O ano de 2033 será o ano em que a Ressurreição irrompeu em meio à morte e a venceu.

“O Pai não esperou que o mundo fosse perfeito, que estivesse em perfeita paz, antes de enviar seu Filho. Foi um tempo difícil. Ainda é um tempo difícil.”

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13 janeiro 2026, 13:33