Guatemala, o presidente dos bispos: paz e justiça contra violências e corrupção
Vatican News
Reina uma calma tensa que, por vezes, parece surreal, como afirma dom Rodolfo Valenzuela Núñez, bispo de Vera Paz, com sede em Cobán, e presidente da Conferência Episcopal da Guatemala: "Cautela e medo imperam entre os cidadãos. Há uma percepção de que o governo reagiu muito rapidamente". E quando o bispo diz "cautela e medo", quer dizer: “Na Cidade da Guatemala, capital do país centro-americano, as pessoas ainda têm medo de sair de casa, embora dezenas de policiais e soldados antimotim, patrulham bairro por bairro, em busca de membros de gangues criminosas, que mataram 10 policiais em emboscadas terroristas, no domingo (18/01), depois que membros de organizações criminosas, detidos em três diferentes penitenciárias, começaram os motins, depois dominados pelas forças de segurança.
Controles direcionados
Notícias recentes afirmam que, entre os mais de duzentos presos, resultantes das restrições e controles, impostos pelo estado de emergência, aprovado pelo Parlamento por 30 dias, se encontram pelo menos vinte afiliados das gangues Barrio 18 e Mara Salvatrucha, duas das mais poderosas, que dominam o país com violências e controlam, sobretudo, o Departamento da Guatemala e a capital. A este respeito, o presidente da Conferência Episcopal local fala à imprensa vaticana: “Os motins nas penitenciárias, orquestrados por gangues, numa tentativa de garantir um regime prisional mais flexível para seus afiliados, podem se verificar, sobretudo, por um motivo: porque as penitenciárias estão nas mãos dos próprios criminosos; os membros das gangues as controlam, os agentes penitenciários são corruptos e o sistema judicial também é devasso; assim, em tais centros de detenção, não se consegue respeitar a lei".
Interesses ocultos
O que mais leva a enfurecer as gangues são os controles policiais e as tentativas de repressão, que provocam reações violentas contra o Estado, como as que ocorreram no início da semana passada. Como diz o nosso presidente, César Bernardo Arévalo de León: “Sabemos quem está por detrás de tudo isso, ou seja, os grupos que se beneficiam da corrupção e se recusam deixar-nos viver em transparência e justiça no país". No fundo, os culpados não são apenas os membros de gangues criminosas, mas também os interesses econômicos e ideológicos, que estão por trás.
Mal generalizado
Após lançarem um apelo à sensatez e à paz e expressarem seu desejo de apoiar as famílias dos policiais mortos, os bispos pediram às autoridades para cumprir suas promessas feitas nas campanhas eleitorais: lutar com todos os meios contra o mal generalizado pela corrupção. Dom Rodolfo Valenzuela Núñez não tem medo de afirmar: "A Conferência Episcopal da Guatemala acredita que o governo tem graves fragilidades; no entanto, deve ser apoiado em uma batalha, que já se sabia, desde o início, ser desigual e difícil contra as forças políticas e econômicas obscuras e seus interesses". Para confirmar seu conceito, o bispo recorda a memória do arcebispo Juan Gerardi, do padre Hermógenes López, dos Missionários do Sagrado Coração, e de muitos outros religiosos e leigos, vítimas da violência, em um passado não muito distante: "Estas figuras encorajam-nos em nosso caminho de resistência e esperança".
Missas suspensas
Na região da Arquidiocese de Santiago da Guatemala, onde, na terça-feira da semana passada, a polícia descobriu os corpos de três mulheres, das quais uma grávida e duas adolescentes, possivelmente assassinadas, durante acertos de contas entre gangues. A escalada de violência, segundo dom Valenzuela, "levou à suspensão de celebrações eucarísticas e de Missas noturnas, por precaução. No resto do país, graças a Deus, as atividades pastorais continuam normalmente".
Não apenas segurança
Os motins nas penitenciárias e o assassinato de policiais não só aumentam os temores pela segurança nacional, mas também podem representar um ataque direto a todo o processo político, declaram ainda os bispos da Guatemala: "A população está bastante preocupada porque isso pode, realmente, mudar o futuro imediato do país. Este ano, serão realizadas as chamadas eleições de segundo grau, que elegerão os magistrados dos Tribunais de Justiça e Constitucionalidade e do Supremo Tribunal Eleitoral. Se a corrupção nestes órgãos não for combatida, nada mais funcionará. Há interesses hipotéticos que querem impedir as mudanças institucionais".
Momento crucial
Os bispos guatemaltecos estão cada vez mais cientes de que o crime organizado pode ser derrotado através dos instrumentos de inteligência do Estado e das Forças Armadas e não fazendo processos sumários, explica dom Rodolfo Valenzuela Núñez: "Somos contrários a ações arbitrárias, que acusam e condenam, sem o devido processo legal, os responsáveis pela violência contra o povo". Porém, o bispo vai mais além, dizendo: “Não é suficiente prender os criminosos, mas também as mentes sofisticadas e astutas que estão por trás”. E o bispo conclui: "Reitero que é necessário identificar claramente os interesses ocultos, mencionados pelo presidente, mas aplicar também a força da lei contra eles. Por isso, achamos que é realmente crucial o momento político, que levará pessoas honestas à magistratura, que serão eleitos este ano. Nós, bispos, insistimos: os cristãos, em sintonia com a Doutrina da Igreja, devem agir nos setores políticos e governamentais. Infelizmente, a ausência deles, com raras exceções, é realmente evidente".
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