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Inteligência Artificial (IA) Inteligência Artificial (IA)  (REUTERS)

Aspectos éticos e antropológicos da Inteligência Artificial

No Dicionário da Doutrina Social da Igreja, Markus Krienke se detém sobre as novas tecnologias, recordando a importância de promover a cultura do cuidado, porque a esperança se funda nas relações com os outros.

Markus Krienke*

Quando o ser humano se apropria da esperança, nascem modelos sociais utópicos: enquanto a Doutrina Social da Igreja, com a Rerum novarum, se dirige contra a transformação da esperança em projeto político, hoje, defende a pessoa e a sua dignidade contra as promessas do movimento do transumanismo. Tais promessas devem ser analisadas, não como visões do futuro, mas como já estão se realizando em concomitância com a “transformação tecnológica (digital) da sociedade”. Assim, não poderíamos correr o risco de substituir a pessoa humana, ponto de referência único e final do conhecimento e decisões morais, por mecanismos poderosos, capazes de enfrentar situações complexas com mais eficiência? O fato de identificar o potencial da esperança com a eficiência não respeita “os limites específicos da natureza humana” (Bento XVI, Spe salvi, 2007);  desta forma, a transformação digital coloca um desafio específico à Doutrina Social de propor os princípios adequados, propondo à sociedade, tecnologicamente transformada, “uma ética de liberdade, responsabilidade e fraternidade, capaz de promover o pleno desenvolvimento das pessoas, em relação com os outros e com a criação” (Francisco, O bem comum na era digital, 2019).

Populismos, capitalismo de vigilância, cultura da extinção e muitos outros fenômenos são, certamente, formas “eficientes” de gerenciar a liberdade das sociedades modernas tardias, mas removem a pessoa do centro da sua responsabilidade civil. Assim, fortalecem-se as tendências sociais, que dissolvem as relações sociais no “enxame”, em que cada indivíduo não se refere mais ao “mundo” e ao “outro”, mas, apenas se espelha, através do uso das novas tecnologias, de modo narcisista. Diante deste desafio, a Doutrina Social da Igreja não se limita em formular princípios éticos (Rome Call for AI Ethics, 2020), mas promove, na sociedade digital, uma cultura para cuidar e acolher a pessoa: de fato, a esperança se baseia apenas na relação incondicional com o outro.

* Professor de Doutrina Social da Igreja junto à Faculdade de Teologia de Lugano e Milão.

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