Participantes no seminário de capacitação da CEMIRDE no Centro de Anchilo (Nampula, Moçambique) Participantes no seminário de capacitação da CEMIRDE no Centro de Anchilo (Nampula, Moçambique) 

Igreja em Nampula reforça combate ao tráfico humano no norte de Moçambique

A Comissão Episcopal para Migrantes, Refugiados e Deslocados (CEMIRDE) realizou, nos dias 1 e 2 de junho, no Centro Catequético Paulo VI, em Anchilo, Arquidiocese de Nampula, um seminário de capacitação de agentes paroquiais das dioceses do Norte de Moçambique sobre prevenção, identificação e denúncia do tráfico de pessoas, órgãos e partes do corpo humano.

Cremildo Alexandre – Nampula, Moçambique

O encontro reuniu representantes das dioceses de Nampula, Nacala, Pemba, Lichinga, Alto Molócuè e Gurué, com o objectivo de fortalecer a sensibilização comunitária e criar mecanismos locais de prevenção e apoio às vítimas.

Durante a formação, participantes partilharam experiências sobre a realidade do tráfico humano nas suas comunidades. A irmã Isabel, Franciscana Missionária de Maria, da Diocese de Pemba, afirmou que a situação de insegurança e deslocação provocada pelo conflito em Cabo Delgado tem aumentado a vulnerabilidade das populações.

Momentos de formação para criar mecanismos locais de prevenção e apoio às vítimas
Momentos de formação para criar mecanismos locais de prevenção e apoio às vítimas

Segundo a religiosa, muitas pessoas são aliciadas com falsas promessas de emprego e melhores condições de vida, acabando por enfrentar situações de exploração laboral e sexual. Ela destacou ainda o trabalho desenvolvido pela sua Congregação no acolhimento de deslocados, assistência humanitária e acompanhamento psicológico de vítimas de trauma.

Também da Diocese de Pemba, Inês Moisés Ponda alertou para o recrutamento de jovens através de promessas enganosas de emprego, especialmente em zonas de exploração mineira. Para a agente pastoral, a sensibilização das comunidades continua a ser uma das principais ferramentas para prevenir o fenómeno.

Procuradoria destaca condenações e importância da denúncia

Um dos momentos centrais da formação foi a intervenção do Procurador provincial e ponto focal para o combate ao tráfico de pessoas, Cristóvão Mulieca, que esclareceu dúvidas dos participantes sobre o enquadramento legal dos crimes relacionados com tráfico humano e tráfico de órgãos.

O magistrado explicou que a Procuradoria-Geral da República tem trabalhado em estreita coordenação com outras instituições para responsabilizar os autores destes crimes, sublinhando que a aplicação de penas severas contribuiu para a redução de alguns casos.

Procurador provincial Cristóvão Mulieca
Procurador provincial Cristóvão Mulieca

“Levámos vários processos ao Tribunal e conseguimos condenações pesadas, algumas entre 20 e 25 anos de prisão. A divulgação dessas sentenças ajudou significativamente a reduzir casos ligados ao tráfico de pessoas e de órgãos”, afirmou.

O Procurador recordou ainda um caso recente envolvendo três estudantes recrutados sob falsas promessas de estudo e posteriormente submetidos a trabalho forçado numa zona mineira. Os responsáveis foram condenados e encontram-se a cumprir pena.

Durante a sua intervenção, incentivou os participantes, líderes comunitários, organizações da sociedade civil e instituições religiosas a denunciarem casos suspeitos junto das autoridades competentes, destacando que o combate ao tráfico humano exige uma ação coordenada entre comunidades, órgãos de justiça e parceiros sociais.

Formação aposta na prevenção

O coordenador de projectos da CEMIRDE, Juvêncio Matsinhe, explicou que a iniciativa resulta das recomendações de várias pesquisas realizadas pela organização em parceria com investigadores moçambicanos.

Segundo Matsinhe, os estudos identificaram diferentes formas de tráfico nas regiões Sul, Centro e Norte do país, incluindo exploração laboral, exploração sexual e tráfico de órgãos e partes do corpo humano.

“A nossa prioridade é a prevenção. Queremos que estes agentes regressem às suas dioceses preparados para sensibilizar as comunidades, identificar sinais de risco e encaminhar situações suspeitas para as instituições competentes”, afirmou.

Juvêncio Matsinhe, coordenador de projectos da CEMIRDE em Nampula
Juvêncio Matsinhe, coordenador de projectos da CEMIRDE em Nampula

A Secretária-geral da CEMIRDE, Irmã Marinês Biasibetti, Missionaria Scalabriana, destacou que o tráfico humano continua a ser uma realidade preocupante e muitas vezes silenciosa.

“Existem muitos casos que não chegam ao conhecimento público. Ainda há medo de denunciar. Por isso, é fundamental formar agentes comunitários capazes de promover a prevenção, defender a dignidade humana e acompanhar possíveis vítimas”, disse.

Defender a dignidade humana

Presente no encontro, a Irmã Pilar de la Puerta, coordenadora da Rede Takumo Moçambique, para o combate ao tráfico humano, recordou que a Doutrina Social da Igreja coloca a dignidade da pessoa humana no centro da acção pastoral.

“O tráfico humano transforma a pessoa numa mercadoria ...”: Ir. Marinês Biasibetti, Secretária-geral da CEMIRDE
“O tráfico humano transforma a pessoa numa mercadoria ...”: Ir. Marinês Biasibetti, Secretária-geral da CEMIRDE

“O tráfico humano transforma a pessoa numa mercadoria. É exactamente o contrário daquilo que a Igreja defende. Cada ser humano possui um valor absoluto que não pode ser negociado nem explorado”, afirmou.

A religiosa alertou que os contextos de pobreza, deslocação forçada e conflito armado aumentam a vulnerabilidade das populações, tornando mais fácil a acção das redes criminosas.

Ao concluir os trabalhos, os participantes comprometeram-se a reforçar as acções de sensibilização nas suas paróquias e comunidades, promovendo uma cultura de denúncia, protecção das vítimas e defesa da dignidade humana, em sintonia com o apelo da Igreja para combater todas as formas de escravidão moderna.

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04 junho 2026, 09:12