Busca

Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, encontra líderes religiosos Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, encontra líderes religiosos  

Arcebispo Sipuka a Ramaphosa: "A causa não é o estrangeiro, a causa é o elefante na sala"

Numa reunião especial com o Presidente Cyril Ramaphosa nos Union Buildings, líderes religiosos apelam ao fim da violência contra os migrantes e instam o Governo a enfrentar os desafios sociais e económicos mais profundos que afectam a África do Sul.

Por Sheila Pires, em Joanesburgo

"A causa não é o estrangeiro. A causa é o elefante na sala."

Com estas palavras, o Arcebispo Sithembele Sipuka, Presidente do Conselho Sul-Africano de Igrejas (SACC) e Arcebispo da Cidade do Cabo, dirigiu-se ao Presidente Cyril Ramaphosa durante uma reunião especial com líderes religiosos realizada na manhã de quarta-feira, 17 de junho de 2026, nos Union Buildings.

Falando em nome dos líderes religiosos reunidos na Presidência, o Arcebispo Sipuka condenou a violência contra os migrantes e apelou ao Governo para enfrentar aquilo que descreveu como as causas profundas da frustração social: o desemprego, a degradação dos serviços públicos, a corrupção e a fragilidade da aplicação da lei.

"Se amanhã todos os cidadãos estrangeiros africanos deixassem este país, os nossos problemas continuariam connosco", afirmou o Arcebispo.

O Presidente do SACC acrescentou: "A falta de serviços básicos continuaria. O desemprego permaneceria. A insegurança e as drogas continuariam. Porque a causa não é o estrangeiro. A causa é o elefante na sala."

A reunião teve lugar num contexto de tensões crescentes em torno da migração na África do Sul e antes de uma mobilização prevista para 30 de junho por grupos que exigem a saída dos estrangeiros sem documentos do país.

Nas últimas semanas, realizaram-se protestos em várias partes da África do Sul. Os mais recentes ocorreram na quarta-feira, 17 de junho de 2026, quando residentes de Mashishing, na província de Mpumalanga, marcharam até aos Departamentos dos Assuntos Internos e do Emprego e Trabalho, exigindo a verificação do estatuto migratório e das licenças comerciais de comerciantes estrangeiros. Em Durban, as tensões agravaram-se no Sherwood Community Hall, onde cidadãos malawianos à espera de repatriamento se encontram abrigados após protestos e episódios de violência.

Neste contexto, o Presidente Ramaphosa convidou os líderes religiosos para discutir a migração e o processo do Diálogo Nacional, descrevendo as comunidades religiosas como parceiros importantes na vida da nação.

"A comunidade religiosa no nosso país sempre foi mais do que um lugar de culto", afirmou o Presidente.

"Ela proporcionou orientação moral e sustento espiritual ao nosso povo."

"Viemos como pastores"

Dom Sipuka, membro do Dicastério para o Diálogo Inter-religioso iniciou a sua intervenção agradecendo ao Presidente por ter recebido a delegação e afirmou que os líderes religiosos procuravam diálogo e cooperação.

"Não viemos dar lições, Senhor Presidente", disse.

"Viemos como pastores que se sentem profundamente perturbados pelo que testemunharam neste país e que acreditam que, quando a Igreja e o Estado caminham juntos e de boa-fé, é possível encontrar um caminho a seguir."

Dom Sipuka referiu-se ao tratamento dado aos migrantes nas últimas semanas.

"Observámos com profunda inquietação seres humanos — independentemente da forma como chegaram ao nosso país — serem perseguidos, assediados, violados, privados dos seus meios de subsistência e ameaçados de morte, a menos que abandonem o país."

Descreveu tais actos como "desumanos", "uma violação do ubuntu" e "um atentado à dignidade humana".

Ao mesmo tempo, o Dom Sipuka reconheceu a frustração de muitos sul-africanos que enfrentam o desemprego, a pobreza e serviços públicos inadequados.

"Muitos dos que marcham rezam connosco aos domingos", afirmou.

"São pessoas que se sentem abandonadas, que vivem o colapso dos serviços básicos, carregam o peso do desemprego e sentem que o Governo demorou demasiado tempo a ouvi-las."

As suas preocupações sobre fronteiras permeáveis, comércio sem licença e produtos inseguros, acrescentou, "não são imaginárias" e merecem ser escutadas.

"Mas uma queixa legítima não torna correcta uma resposta violenta."

O elefante na sala

O Arcebispo da Arquidiocese da Cidade do Cabo afirmou que os migrantes são frequentemente responsabilizados por problemas cujas causas se encontram noutro lugar.

Utilizando uma expressão em isiXhosa, disse ao Presidente: ukufa kusembizeni, que significa "o problema está dentro da própria panela".

Apontou para um sistema educativo que não prepara adequadamente os jovens para o mercado de trabalho, para a corrupção que enfraqueceu as instituições públicas e para a exploração da mão-de-obra migrante.

"Culpar o estrangeiro é permitir que os verdadeiros culpados escapem ao escrutínio", afirmou.

O papel do Estado

Por sua vez, o Presidente Ramaphosa reconheceu as preocupações da população relativamente à imigração ilegal, mas afirmou que a migração não é a causa das dificuldades sociais e económicas da África do Sul.

"Estas preocupações são reais. Precisam de ser ouvidas e de ser abordadas", disse.

"No entanto, a imigração ilegal não é a causa das nossas dificuldades sociais e económicas."

O Presidente reiterou a estratégia governamental de cinco pilares para a gestão da migração, anunciada no seu discurso à nação de 7 de Junho. A estratégia inclui um reforço da aplicação das leis de imigração e laborais, melhor gestão das fronteiras, combate à corrupção nos sistemas migratórios, reformas legislativas e cooperação com parceiros regionais através da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e da União Africana.

"Podemos proteger as nossas fronteiras protegendo, ao mesmo tempo, a dignidade humana", afirmou o Presidente Ramaphosa.

"Podemos fazer cumprir as nossas leis respeitando a nossa Constituição. Podemos tornar as nossas comunidades mais seguras preservando os valores do Ubuntu."

O Presidente sublinhou igualmente que a aplicação das leis migratórias é responsabilidade do Estado.

"A responsabilidade de fazer cumprir as nossas leis cabe ao Estado", afirmou.

"Nenhum indivíduo pode parar outro para exigir documentos ou prova de nacionalidade."

"Não há lugar para o racismo, sexismo, xenofobia, afrofobia ou qualquer outra forma de intolerância."

Por sua vez, Dom Sipuka apelou à aplicação consistente da lei.

"Estamos preocupados", afirmou, "com relatos persistentes de que as autoridades responsáveis pela aplicação da lei fecharam os olhos a muito do que aconteceu."

"A aplicação da lei é tarefa do Estado, não das multidões."

O Dom Sipuka manifestou também preocupação com aquilo que descreveu como a instrumentalização política da crise migratória.

"Estamos igualmente preocupados com os indícios de que alguns políticos estão a transformar esta crise humanitária numa oportunidade de ganho político, utilizando uma retórica inflamatória e alimentando o pânico não para servir as comunidades, mas para alcançar vantagens políticas."

"Os compromissos no papel não são suficientes"

Numa mensagem áudio partilhada com o gabinete de comunicação da Conferência dos Bispos Católicos da África Austral (SACBC) após a reunião, o Arcebispo Sipuka afirmou que os líderes religiosos instaram o Governo a agir contra grupos que "tomaram a lei nas suas próprias mãos contra cidadãos estrangeiros".

Disse também que manifestaram preocupação relativamente à marcha prevista para 30 de Junho e pediram garantias de que as forças de segurança impediriam novos episódios de violência.

"Foi-nos garantido que as forças da ordem serão efectivamente mobilizadas", afirmou.

Embora tenha saudado a estratégia governamental para a migração, o Arcebispo Sipuka sublinhou que a sua implementação é essencial.

"Os compromissos no papel não são suficientes", afirmou.

"Esses compromissos têm agora de se traduzir em acções concretas e visíveis."

Rejeitar ódio e violência e apoiar as vítimas

O Arcebispo concluiu apelando aos cristãos e a todas as pessoas de boa vontade para rejeitarem o ódio e a violência e apoiarem aqueles que foram afectados pelos recentes episódios de agitação.

"Apelamos às nossas comunidades para que ajudem aqueles que foram afectados, seja com alimentos, alojamento, medicamentos e, acima de tudo, com proximidade e solidariedade humana neste momento difícil."

Enquanto a África do Sul continua a debater a migração e a coesão social, a reunião de quarta-feira nos Union Buildings reuniu Governo e líderes religiosos num apelo comum a soluções legais, humanas e duradouras.

"O estrangeiro à nossa porta não é o nosso inimigo", afirmou o Arcebispo Sipuka.

"A causa não é o estrangeiro. A causa é o elefante na sala."

Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, assine a nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui.

18 junho 2026, 17:15