África do Sul - Rede Thalitha Kum forma jovens para a prevenção do Tráfico Humano África do Sul - Rede Thalitha Kum forma jovens para a prevenção do Tráfico Humano  (©Sheila Pires)

“É o jovem que evangeliza o jovem”: Irmã Neide - Thalitha Kum

Num contexto marcado pelo aumento das vulnerabilidades sociais, pela migração forçada e pelas tensões xenófobas na África do Sul, jovens católicos foram chamados a assumir um papel ativo na prevenção do tráfico humano. Foi durante um encontro nacional, promovido pela Rede Talitha Kum, em Pretória. A Irmã Neide Lamperti, Coordenadora do Departamento de Migrantes, Refugiados e Tráfico Humano da SACBC, falou disso à Vatican News.

Sheila Pires - África do Sul

Realizado de 11 a 15 de maio, no Centro de Retiro e Conferências Padre Pio, em Pretória, o encontro reuniu 39 participantes, entre os quais, Jovens Embaixadores da Talitha Kum, sacerdotes e religiosas que acompanham pastoralmente a juventude em várias dioceses da África do Sul.

Cinco dias de formação, reflexão, oração

Durante cinco dias, os participantes viveram momentos de reflexão, oração, formação prática e partilha de experiências, aprofundando o conhecimento sobre as diferentes formas de tráfico humano e os mecanismos de prevenção e acompanhamento das vítimas.

A iniciativa foi organizada pela Talitha Kum South Africa, em parceria com o Gabinete para Migrantes, Refugiados e Tráfico Humano, da Conferência dos Bispos Católicos da África Austral (SACBC) e com a Conferência dos Religiosos e Religiosas da África Austral (LCCLSA). Contou-se ainda com o apoio da Talitha Kum Internacional.

Colaboração entre várias instituições

Em entrevista à Vatican News, a Irmã Neide Lamperti, coordenadora do Departamento de Migrantes, Refugiados e Tráfico Humano da SACBC, frisou que a colaboração entre as várias instituições nasce da consciência de que “sozinhos não somos nada”.

Segundo a religiosa scalabriniana, a parceria fortalece o trabalho já desenvolvido nas dioceses e permite dar uma resposta mais eficaz perante este fenómeno que atinge particularmente os jovens. “Trabalhar com os jovens que fazem parte da Rede Talitha Kum é importante porque eles são formados e capacitados para esta missão, tornando-se capazes de agir junto dos próprios coetâneos, que são os mais vulneráveis e podem facilmente tornar-se vítimas do tráfico humano”, afirmou.

Formação, parte de um processo mais amplo

A Irmã Neide explicou que a formação faz parte de um processo mais amplo que, ao longo dos últimos anos, tem mobilizado dioceses, congregações religiosas, escolas e comunidades locais em diferentes países da região, incluindo África do Sul, Eswatini e Botswana.

Visitamos escolas, trabalhamos com professores e estudantes, porque os jovens precisam de conhecer esta realidade que, muitas vezes se apresenta de forma disfarçada, através de falsas promessas de trabalho, estudo ou melhores condições de vida”, explicou.

Num país onde o debate em torno da imigração e da xenofobia se tornou particularmente sensível, a religiosa sublinhou que muitos jovens migrantes acabam por viver em situações de extrema vulnerabilidade, frequentemente sem documentos e expostos a diferentes formas de exploração.

É o jovem que evangeliza o jovem. Quando um jovem fala com outro jovem, a mensagem chega de maneira diferente e mais profunda”, afirmou. Segundo ela, os Embaixadores Jovens da Talitha Kum tornam-se capazes de identificar situações de risco nos próprios círculos sociais, nas escolas, universidades e bairros, ajudando colegas vulneráveis e encaminhando-os para os serviços adequados de proteção e regularização documental.

Da esquerda para a direita- Irmã Jane Frances Mohlala SCP, Coordenadora Nacional da Talitha Kum South Africa; Irmã Neide Lamperti MSCS, Coordenadora do Gabinete para Migrantes, Refugiados e Tráfico Humano da SACBC; e Irmã Zelna Oosthuizen RGS, Presidente da Conferência da Vida Consagrada da África Austral (LCCLSA).
Da esquerda para a direita- Irmã Jane Frances Mohlala SCP, Coordenadora Nacional da Talitha Kum South Africa; Irmã Neide Lamperti MSCS, Coordenadora do Gabinete para Migrantes, Refugiados e Tráfico Humano da SACBC; e Irmã Zelna Oosthuizen RGS, Presidente da Conferência da Vida Consagrada da África Austral (LCCLSA).   (©Sheila Pires)

Módulos especializados e novas orientações

A formação incluiu também módulos especializados sobre legislação sul-africana relacionada com o tráfico de pessoas, mecanismos de proteção, procedimentos de encaminhamento de vítimas e estratégias de prevenção digital diante do crescente fenómeno do recrutamento online e do cibertráfico.

Durante o encontro, os participantes receberam ainda as novas orientações oficiais da Talitha Kum África do Sul, aprovadas em setembro de 2024, e que definem a identidade, a missão e a estrutura de funcionamento da rede, no país.

Tónica na prevenção, proteção, reintegração

As diretrizes apresentadas aos Jovens Embaixadores põem a tónica na prevenção, proteção, reintegração das vítimas, advocacia política, oração e colaboração interinstitucional. Entre os objetivos prioritários estão a sensibilização nas escolas e paróquias, o acompanhamento psicossocial das vítimas, a promoção de migração segura e a luta contra as causas estruturais do tráfico humano, como a pobreza, os conflitos, a desigualdade e a falta de oportunidades.

O documento estabelece ainda normas rigorosas de proteção e conduta ética para todos os membros da rede, incluindo formação obrigatória em salvaguarda de menores, confidencialidade, proibição de qualquer exploração ou abuso e procedimentos claros de denúncia.

Jovens Embaixadores para atuar entre pares

Os Jovens Embaixadores, com idades entre os 18 e os 30 anos, são chamados a desempenhar um papel específico na educação entre pares, na sensibilização através das redes sociais e na promoção de vigílias de oração e campanhas públicas contra o tráfico humano.

Segundo a Irmã Neide, um dos aspetos mais encorajadores do encontro foi dar-se conta do desenvolvimento e a consciência social, demonstrados pelos jovens participantes.

Foram cinco dias muito bem aproveitados. Vimos jovens ativos, preocupados com esta realidade e desejosos de cuidar não apenas de si mesmos, mas também dos outros”, afirmou.

Plano de ação

No final da formação, os participantes elaboraram planos de ação concretos para serem implementados nas dioceses e paróquias de origem, garantindo assim a continuidade do trabalho pastoral e educativo junto das comunidades juvenis.

Oiça a entrevista com a Irmã Neide Lamperti

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19 maio 2026, 10:49