Cardeal Tagle no Burundi pelos 75 anos do Seminário P. Claver
Vatican News (com FIDES)
Acolhido em festa, no Aeroporto de Bujumbura por numerosos paroquianos, o Cardeal Tagle, meditou - na sua homilia da missa celebrada no sábado 16 de maio - sobre o mistério da Última Ceia e as suas implicações para a formação sacerdotal, desenvolvendo três pilares espirituais: a comunhão eclesial, a diversidade comunitária e a oração.
Mensagem de paz do Papa Leão XIV
Logo no início da sua homilia, proferida em francês, o Cardeal Tagle transmitiu a mensagem do Bispo de Roma: "O Senhor Ressuscitado continua a vir ter connosco para nos dirigir a seguinte saudação: 'A paz esteja convosco'.
Leão XIV fez sua esta saudação de Cristo desde o primeiro momento do seu pontificado e encarregou-me de a transmitir a vós, acompanhada da certeza do vosso afeto paternal - sublinhou o Cardeal "
Em seguida, justificou esta celebração jubilar citando o Livro de Tobias: "Se é bom manter oculto o segredo dos reis, as maravilhas de Deus devem ser reveladas e celebradas como merecem."
O Cardeal Tagle prestou homenagem aos pioneiros da evangelização no Burundi e louvou os projetos de formação em curso, em particular o Seminário Maior preparatório em Cibitoke e o Seminário Maior Bispo Michael Aidan Courtney, em construção em Minago, na Diocese de Ruyigi.
A escolha de Minago para este projeto não é casual: foi precisamente ali que o Arcebispo Michael Aidan Courtney, então Núncio Apostólico no Burundi, foi assassinado a 29 de dezembro de 2003. Um monumento comemorativo foi inaugurado e benzido em Minago pelo Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, a 14 de agosto de 2025, durante a sua visita ao Burundi.
Aos seminaristas
Dirigindo-se aos seminaristas presentes, o Cardeal Tagle retomou as palavras proferidas pelo Papa Leão XIV durante o Jubileu dos Seminaristas na Basílica de São Pedro, a 24 de junho de 2025:
"Caros seminaristas, a sabedoria da Mãe Igreja, assistida pelo Espírito Santo, procura sempre, ao longo dos tempos, os métodos mais adequados para a formação de ministros ordenados, de acordo com as necessidades do lugar. Neste compromisso, qual é o vosso papel?"
Trata-se de nunca se acomodar, nunca se contentar com pouco, nunca ser meros recetores passivos, mas sim de ter paixão pela vida sacerdotal, vivendo o presente e olhando para o futuro com um coração profético.
Esta exortação deu o mote para uma meditação centrada no Cenáculo como modelo para o seminário, um lugar de espera ativa pelo Espírito Santo durante 75 anos em Burasira.
Com Pedro e sob Pedro: Comunhão Eclesial
O primeiro pilar desenvolvido pelo Cardeal Tagle diz respeito à vida de comunhão. Meditando sobre os Atos dos Apóstolos, recordou como os Onze permaneceram unidos após a Ascensão: “Os apóstolos, depois de verem Jesus subir ao céu, encontram-se sozinhos diante do seu destino. O Mestre que os reuniu já não é fisicamente visível, mas eles permaneceram unidos entre si antes de serem dispersos pelos quatro cantos do mundo para a proclamação do Evangelho.”
O cardeal enfatizou o primado de Pedro, citando a promessa de Cristo: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” De seguida, desenvolveu as implicações eclesiológicas: “Todo o seminário é um cenáculo onde se aprende a viver a experiência da comunhão eclesial, presidida pelo sucessor do Apóstolo Pedro. A comunhão precede, fecunda e nutre a missão.”
Cum Petro et sub Petro
Referindo-se à fórmula latina "Cum Petro et sub Petro" (com Pedro e sob Pedro), o Cardeal sublinhou que esta comunhão pressupõe "o reconhecimento da dependência de uma força fundamental da qual os discípulos obtêm força e inspiração". Lembrou ainda, citando a encíclica Lumen Fidei, do Papa Francisco, que "o magistério do Papa e dos bispos em comunhão com ele não é algo exterior ou um limite à liberdade, mas garante o contacto com a fonte original da fé".
Uma Igreja da Diversidade
O segundo pilar descrito diz respeito ao carácter misto da comunidade do Cenáculo. O Cardeal Tagle refletiu sobre a presença de Maria ao lado dos Apóstolos: "A Igreja não é composta apenas pelos apóstolos, mas também inclui mulheres, entre elas Maria, a Mãe de Jesus." Descreveu Maria como "uma discípula exemplar, que sempre procurou seguir a vontade de Deus em todas as coisas", mantendo-se fiel à sua resposta ao anjo: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra."
Citando S. Paulo, recordou então: "Os dons da graça são variados, mas é o mesmo Espírito que os produz. Os serviços são variados, mas é o mesmo Senhor que os anima." Esta eclesiologia da complementaridade leva a uma importante consideração: "A formação dos candidatos ao sacerdócio não envolve apenas certos sectores da Igreja, como bispos e alguns padres. Cada membro da Igreja e cada categoria de discípulo é afetado pelo que acontece no Cenáculo dos nossos seminários."
O cardeal exortou as comunidades burundesas a apoiarem materialmente os seus seminários, recordando as palavras de Cristo: "Deem-lhes vocês mesmos algo para comer".
A oração, arma do ministério
O terceiro e último pilar abordado na homilia do Cardeal Tagle é a oração como "a principal atividade da comunidade do Cenáculo". Referiu-se ao Evangelho de São João, onde Jesus ora: "Pai, chegou a hora; glorifica o teu Filho, para que o teu Filho te glorifique". Comentou: "A glória de Jesus, portanto, não é a do mundo, mas a da revelação total e plena do amor de Deus por ele e pelos seus irmãos e irmãs na humanidade. É a glória do escândalo da Cruz".
Salientando que "a oração foi a arma do ministério de Jesus até ao fim, até ao cume do Gólgota", recordou que, mesmo depois da Ressurreição, "Jesus é, mais do que nunca, o nosso intercessor por excelência junto do Pai".
São Pedro Claver, um modelo de entrega a Deus
Em conclusão, o Cardeal Tagle prestou homenagem ao padroeiro do seminário, São Pedro Claver, um jesuíta espanhol nascido a 26 de junho de 1580, em Verdú, Catalunha, e falecido a 8 de setembro de 1654, em Cartagena das Índias, na atual Colômbia. "Definiu-se, a 3 de abril de 1622, como escravo dos africanos para sempre." Após ter concluído os estudos teológicos em Bogotá, foi enviado para Cartagena, onde foi ordenado sacerdote em 1616. Passou o resto da sua vida a servir as pessoas escravizadas que desembarcavam naquele porto, provenientes da África.
Cartagena, porto de desembarque
Cartagena era um dos dois portos espanhóis que recebiam pessoas escravizadas. Estima-se que o número de escravos atingisse os 10.000 por ano, na época de Pedro Claver, e estes estavam geralmente em muito mau estado após a longa viagem. Pedro Claver aguardava-os no cais com provisões que ele próprio tinha recolhidos. Acompanhado por ex-escravos que servem de intérpretes, o jesuíta espanhol embarca nos navios e saúda os passageiros antes de descer ao porão para cuidar dos doentes. "Ele limpa feridas, aplica pomadas, coloca pensos e fala-lhes de Deus", lê-se no site dos jesuítas.
Ao longo de 44 anos, Pedro Claver acolheu os escravizados que desembarcavam, alimentou-os, cuidou deles, vestiu-os, consolou-os e catequizou-os. Visitou também leprosários e cuidou das vítimas da peste; aliás, morreu de peste quando esta atingiu Cartagena. O Cardeal enfatizou que este santo "sofreu rejeição e incompreensão, não só da sociedade colonial, mas também dentro da sua própria ordem religiosa" e "deixou-nos um belo exemplo sobre como enfrentar as adversidades da vida".
Uma viagem da paixão à glória
O Cardeal concluiu a sua homilia com esta exortação universal: "São Pedro ensina-nos, na segunda leitura desta liturgia, que devemos aprender a participar nos sofrimentos de Cristo para nos alegrarmos quando a sua glória for revelada. Não se pode chegar ao maravilhoso jardim da ressurreição sem necessariamente passar pelo estreito e árduo jardim do Getsémani, que conduz ao doloroso jardim do Calvário”.
Irmãos e irmãs, a própria composição da comunidade mista do Cenáculo ensina-nos que, homens e mulheres, apóstolos ou simples discípulos, parentes consanguíneos de Jesus, todos estamos envolvidos nesta viagem da paixão à glória, da cruz à ressurreição, num espírito de oração e de abandono a Deus. Um poderoso chamamento espiritual e eclesiológico.
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