2025.03.17 Burundi Bujumbura Missionaries Africa safeguarding workshop

Cardeal Tagle no Burundi pelos 75 anos do Seminário P. Claver

O Cardeal Luís António Tagle, Pró-Prefeito do Dicastério para a Evangelização, Secção para a Primeira Evangelização e Novas Igrejas Particulares, deslocou-se ao Burundi, como enviado do Santo Padre, para a celebração dos 75 anos do Seminário Maior São Pedro Claver que, desde 1950, vem formando candidatos ao sacerdócio no país. Levou uma mensagem do Papa e, na sua homilia, falou de comunhão eclesial, a diversidade comunitária e a oração.

Vatican News (com FIDES)

Acolhido em festa, no Aeroporto de Bujumbura por numerosos paroquianos, o Cardeal Tagle, meditou - na sua homilia da missa celebrada no sábado 16 de maio - sobre o mistério da Última Ceia e as suas implicações para a formação sacerdotal, desenvolvendo três pilares espirituais: a comunhão eclesial, a diversidade comunitária e a oração.

Mensagem de paz do Papa Leão XIV

Logo no início da sua homilia, proferida em francês, o Cardeal Tagle transmitiu a mensagem do Bispo de Roma: "O Senhor Ressuscitado continua a vir ter connosco para nos dirigir a seguinte saudação: 'A paz esteja convosco'.

Leão XIV fez sua esta saudação de Cristo desde o primeiro momento do seu pontificado e encarregou-me de a transmitir a vós, acompanhada da certeza do vosso afeto paternal - sublinhou o Cardeal "

Em seguida, justificou esta celebração jubilar citando o Livro de Tobias: "Se é bom manter oculto o segredo dos reis, as maravilhas de Deus devem ser reveladas e celebradas como merecem."

O Cardeal Tagle prestou homenagem aos pioneiros da evangelização no Burundi e louvou os projetos de formação em curso, em particular o Seminário Maior preparatório em Cibitoke e o Seminário Maior Bispo Michael Aidan Courtney, em construção em Minago, na Diocese de Ruyigi.

A escolha de Minago para este projeto não é casual: foi precisamente ali que o Arcebispo Michael Aidan Courtney, então Núncio Apostólico no Burundi, foi assassinado a 29 de dezembro de 2003. Um monumento comemorativo foi inaugurado e benzido em Minago pelo Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, a 14 de agosto de 2025, durante a sua visita ao Burundi.

Aos seminaristas

Dirigindo-se aos seminaristas presentes, o Cardeal Tagle retomou as palavras proferidas pelo Papa Leão XIV durante o Jubileu dos Seminaristas na Basílica de São Pedro, a 24 de junho de 2025:

"Caros seminaristas, a sabedoria da Mãe Igreja, assistida pelo Espírito Santo, procura sempre, ao longo dos tempos, os métodos mais adequados para a formação de ministros ordenados, de acordo com as necessidades do lugar. Neste compromisso, qual é o vosso papel?"

Trata-se de nunca se acomodar, nunca se contentar com pouco, nunca ser meros recetores passivos, mas sim de ter paixão pela vida sacerdotal, vivendo o presente e olhando para o futuro com um coração profético.

Esta exortação deu o mote para uma meditação centrada no Cenáculo como modelo para o seminário, um lugar de espera ativa pelo Espírito Santo durante 75 anos em Burasira.

Com Pedro e sob Pedro: Comunhão Eclesial

O primeiro pilar desenvolvido pelo Cardeal Tagle diz respeito à vida de comunhão. Meditando sobre os Atos dos Apóstolos, recordou como os Onze permaneceram unidos após a Ascensão: “Os apóstolos, depois de verem Jesus subir ao céu, encontram-se sozinhos diante do seu destino. O Mestre que os reuniu já não é fisicamente visível, mas eles permaneceram unidos entre si antes de serem dispersos pelos quatro cantos do mundo para a proclamação do Evangelho.”

O cardeal enfatizou o primado de Pedro, citando a promessa de Cristo: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” De seguida, desenvolveu as implicações eclesiológicas: “Todo o seminário é um cenáculo onde se aprende a viver a experiência da comunhão eclesial, presidida pelo sucessor do Apóstolo Pedro. A comunhão precede, fecunda e nutre a missão.”

Cum Petro et sub Petro

Referindo-se à fórmula latina "Cum Petro et sub Petro" (com Pedro e sob Pedro), o Cardeal sublinhou que esta comunhão pressupõe "o reconhecimento da dependência de uma força fundamental da qual os discípulos obtêm força e inspiração". Lembrou ainda, citando a encíclica Lumen Fidei, do Papa Francisco, que "o magistério do Papa e dos bispos em comunhão com ele não é algo exterior ou um limite à liberdade, mas garante o contacto com a fonte original da fé".

Uma Igreja da Diversidade

O segundo pilar descrito diz respeito ao carácter misto da comunidade do Cenáculo. O Cardeal Tagle refletiu sobre a presença de Maria ao lado dos Apóstolos: "A Igreja não é composta apenas pelos apóstolos, mas também inclui mulheres, entre elas Maria, a Mãe de Jesus." Descreveu Maria como "uma discípula exemplar, que sempre procurou seguir a vontade de Deus em todas as coisas", mantendo-se fiel à sua resposta ao anjo: "Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra."

Citando S. Paulo, recordou então: "Os dons da graça são variados, mas é o mesmo Espírito que os produz. Os serviços são variados, mas é o mesmo Senhor que os anima." Esta eclesiologia da complementaridade leva a uma importante consideração: "A formação dos candidatos ao sacerdócio não envolve apenas certos sectores da Igreja, como bispos e alguns padres. Cada membro da Igreja e cada categoria de discípulo é afetado pelo que acontece no Cenáculo dos nossos seminários."

O cardeal exortou as comunidades burundesas a apoiarem materialmente os seus seminários, recordando as palavras de Cristo: "Deem-lhes vocês mesmos algo para comer".

A oração, arma do ministério

O terceiro e último pilar abordado na homilia do Cardeal Tagle é a oração como "a principal atividade da comunidade do Cenáculo". Referiu-se ao Evangelho de São João, onde Jesus ora: "Pai, chegou a hora; glorifica o teu Filho, para que o teu Filho te glorifique". Comentou: "A glória de Jesus, portanto, não é a do mundo, mas a da revelação total e plena do amor de Deus por ele e pelos seus irmãos e irmãs na humanidade. É a glória do escândalo da Cruz".

Salientando que "a oração foi a arma do ministério de Jesus até ao fim, até ao cume do Gólgota", recordou que, mesmo depois da Ressurreição, "Jesus é, mais do que nunca, o nosso intercessor por excelência junto do Pai".

São Pedro Claver, um modelo de entrega a Deus

Em conclusão, o Cardeal Tagle prestou homenagem ao padroeiro do seminário, São Pedro Claver, um jesuíta espanhol nascido a 26 de junho de 1580, em Verdú, Catalunha, e falecido a 8 de setembro de 1654, em Cartagena das Índias, na atual Colômbia. "Definiu-se, a 3 de abril de 1622, como escravo dos africanos para sempre." Após ter concluído os estudos teológicos em Bogotá, foi enviado para Cartagena, onde foi ordenado sacerdote em 1616. Passou o resto da sua vida a servir as pessoas escravizadas que desembarcavam naquele porto, provenientes da África.

Cartagena, porto de desembarque

Cartagena era um dos dois portos espanhóis que recebiam pessoas escravizadas. Estima-se que o número de escravos atingisse os 10.000 por ano, na época de Pedro Claver, e estes estavam geralmente em muito mau estado após a longa viagem. Pedro Claver aguardava-os no cais com provisões que ele próprio tinha recolhidos. Acompanhado por ex-escravos que servem de intérpretes, o jesuíta espanhol embarca nos navios e saúda os passageiros antes de descer ao porão para cuidar dos doentes. "Ele limpa feridas, aplica pomadas, coloca pensos e fala-lhes de Deus", lê-se no site dos jesuítas.

Ao longo de 44 anos, Pedro Claver acolheu os escravizados que desembarcavam, alimentou-os, cuidou deles, vestiu-os, consolou-os e catequizou-os. Visitou também leprosários e cuidou das vítimas da peste; aliás, morreu de peste quando esta atingiu Cartagena. O Cardeal enfatizou que este santo "sofreu rejeição e incompreensão, não só da sociedade colonial, mas também dentro da sua própria ordem religiosa" e "deixou-nos um belo exemplo sobre como enfrentar as adversidades da vida".

Uma viagem da paixão à glória

O Cardeal concluiu a sua homilia com esta exortação universal: "São Pedro ensina-nos, na segunda leitura desta liturgia, que devemos aprender a participar nos sofrimentos de Cristo para nos alegrarmos quando a sua glória for revelada. Não se pode chegar ao maravilhoso jardim da ressurreição sem necessariamente passar pelo estreito e árduo jardim do Getsémani, que conduz ao doloroso jardim do Calvário”.

Irmãos e irmãs, a própria composição da comunidade mista do Cenáculo ensina-nos que, homens e mulheres, apóstolos ou simples discípulos, parentes consanguíneos de Jesus, todos estamos envolvidos nesta viagem da paixão à glória, da cruz à ressurreição, num espírito de oração e de abandono a Deus. Um poderoso chamamento espiritual e eclesiológico. 

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19 maio 2026, 13:08