Alda Espírito Santo - Património vivo do Renascimento Africano
Dulce Araújo - Vatican News
Eram vários aqueles que lutaram pela libertação das então colónias portuguesas em África. Ficaram conhecidos como "geração de Cabral". Tinham mais ou menos a mesma idade. É assim que nestes anos se está a celebrar os seus centenários de nascimento. A ocasião é propícia para trazer à tona os seus pensamentos, posturas e atitudes. De entre eles distitinguiu-se a Alda Espírito Santo, figura incontornável da Independência de São Tomé e Príncipe. Nascera a 30 de abril de 1926. São vários os eventos em sua memória tanto em São Tomé, onde vai haver em julho uma grande conferência internacional, como fora do país.
O programa semanal da Rádio Vaticano "África em Clave Cultural: personagens e eventos" não fica atrás nessa homenagem, ouvindo, para o efeito, a sua conterrânea e estudiosa, Inocência Mata, e a crónica do editor, Filinto Elísio (Rosa de Porcelana Editora) que vê em Alda Espírito Santo um "Património do Renascimento Africano", crónica que aqui reproduzimos:
Alda Espírito Santo: Património vivo do Renascimento Africano
Em tempo de celebração do Centenário de Nascimento da escritora, poetisa e política Alda Espírito Santo, ela é por todos lembrada como uma figura de referência maior da luta pela independência e da reconstrução nacional da República de São Tomé e Príncipe.
Nascida em 30 de abril de 1926, na cidade de São Tomé, Alda Neves da Graça do Espírito Santo, filha de uma professora primária e de um funcionário dos Correios, fez os seus primeiros estudos em São Tomé e estudos secundários em Portugal, onde também frequentou a Universidade, que não completou, em parte devido às suas atividades políticas.
Na sua passagem por Lisboa, foi marcante o seu ativismo na tomada de consciência anticolonial, ao lado de alguns contemporâneos como Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto, Marcelino dos Santos, Francisco José Tenreiro e outras figuras do nacionalismo africano, designadamente na emblemática Casa dos Estudantes do Império.
Notável foi a sua verticalidade, coerência e coragem, enquanto parte do movimento pela luta de libertação de São Tomé e Príncipe. Em 1975, após a independência do seu país, ocorrida em 12 de Junho, exerce diversas funções de Estado, entre as quais de Ministra da Educação e Cultura, Ministra da Informação e Cultura e Presidente da Assembleia Nacional (duas legislaturas), para além de Secretária-Geral da União Nacional de Escritores e Artistas de São Tomé e Príncipe.
Em 1976 publica um livro de poemas intitulado “O jogral das Ilhas” e, em 1978, o livro de poemas “É nosso o solo sagrado da terra”, uma coletânea dos poemas produzidos por Alda entre os anos de 1950 e 1970.
Segundo o poeta português, Manuel Alegre, “A sua poesia teve importância em todo o movimento anticolonial e em todos os países de expressão portuguesa”. Todos os anos, desde a independência de São Tomé e Príncipe, uma voz feminina recita “Trindade”, um dos poemas com que a escritora imortalizou o massacre de 1953.
Aliás, todo o seu discurso poético exalta a luta do povo santomense e as tradições culturais do seu país. É a autora do hino nacional e de várias obras literárias, em que se destacam “Mataram o Rio da Minha Cidade”, “Mensagens do Solo Sagrado”, e “Cantos do Solo Sagrado”, entre outras.
Os seus poemas aparecem nas mais variadas antologias dispersas, nomeadamente em Poesia Negra de Expressão Portuguesa (1958); Poetas de S.Tomé e Príncipe (1963); No Reino de Caliban II (1976); Sonha Mamana África (1988); O Coro dos Poetas e Prosadores de S.Tomé e Príncipe (1992); entre outros bem como em jornais e revistas lusófonas.
Alda Espírito Santo, uma das mais conhecidas poetizas africanas de língua portuguesa, morreu aos 82 anos, em 9 de Março de 2010, em Luanda, deixando um legado multifacetado de compromisso cívico, palavra poética, e engajamento patriótico. O governo santomense decretara na altura o luto oficial de 5 dias.
No ano passado, a escritora santomense Alda de Barros, fez uma vibrante homenagem à sua conterrânea, Alda Espírito Santo, na sétima edição do Festival de Literatura-Mundo do Sal, em tributo aos cinquenta anos de independência de Angola, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe, através das figuras literárias de Agostinho Neto, Onésimo Silveira, Noémia de Sousa e Alda Espírito Santo.
Neste ano de 2026, o seu centenário convida a uma reflexão sobre o papel da mulher africana na luta anticolonial e na afirmação de uma África renascida. Alda Espírito Santo convoca à exegese em prol dos ideais de soberania, liberdade e prosperidade que devem acompanhar a arte e a escrita"
Santomense, estudiosa de Literatura Africana, docente na Universidade de Lisboa, a professora Inocência Mata, recorda em entrevista à emissão "África em Calve Cultural: personagens e eventos", a sua ilustre conterrânea, Alda Espírito Santo, com a qual teve a oportunidade de privar e de constatar a sua ternura, afetividade e atenção à realidade social do seu país; sublinha ainda que, tal como a chamada "geração de Cabral" a que ela pertencia, Alda Espírito Santo soube permanecer fiel aos ideais de uma África livre e próspera para todos, tanto é que, contrariamente a muitos da "geração da utopia", não se enriqueceu à custa do povo.
A Professora Inocência Mata evoca ainda a tristeza que o abatimento do Monumento às Vítimas do Massacre de Batepá, na Praia Fernão Dias, em São Tomé (para ali se construir um Porto de Águas Profundas), causou à Alda que tinha testemunhado esse massacre e lutado por esse Monumento. O povo revoltou-se. Acabou-se por construir o Monumento noutro lugar, mas Alda já não estava.
Protagonista de alguns dos eventos que marcam o Centenário de Nascimento de Alda Espírito Santo, a professora Inocência Mata considera de fundamental importância levar a palavra da “Matriarca da Independência”, assim como doutras figuras da “geração de Cabral” às escolas para as dar a conhecer a esta nova geração.
Ela espera também que o sonho de transformar a casa da Alda Espírito Santo num Museu da Resistência se concretize em breve.
Será uma forma de manter viva a memória daquela que sonhou uma independência total para o seu São Tomé e Príncipe e que por ela lutou, mas que “morreu desencantada com o país”. Uma figura que continua a ser uma fonte de inspiração para a refundação do país, remata a estudiosa e ativista, Inocência Mata.
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