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Dom Tonito José Francisco Xavier Muananoua e outros participantes no seminário da Iniciativa Memorare, organizado pela IMBISA, em Pretória (África do Sul) Dom Tonito José Francisco Xavier Muananoua e outros participantes no seminário da Iniciativa Memorare, organizado pela IMBISA, em Pretória (África do Sul)  (Sheila Pires, Joanesburgo (África do Sul))

Dom Tonito sublinha a necessidade de materiais para a salvaguarda na África Austral

A promoção de uma cultura de proteção e responsabilidade dentro da Igreja exige formação contínua, colaboração entre instituições e acesso a recursos adequados às realidades locais. Foi com este espírito que bispos e especialistas da Associação Inter-Regional dos Bispos da África Austral (IMBISA) se reuniram, em março, em Pretória, para um seminário da Iniciativa Memorare, um programa que visa reforçar a salvaguarda e a proteção de menores e de pessoas vulneráveis.

Por Sheila Pires, em Joanesburgo

Entre os participantes esteve Dom Tonito José Francisco Xavier Muananoua, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Maputo, que destacou a importância de tornar os materiais formativos disponíveis em língua portuguesa, de modo a garantir uma implementação mais eficaz das políticas de salvaguarda nos países lusófonos da região.

A importância da língua portuguesa na formação

Dom Tonito sublinhou que a disponibilidade de documentos e materiais formativos em português é essencial para garantir uma formação mais profunda e acessível. “Tratando-se de Conferências de expressão de língua portuguesa, como Angola e Moçambique, vamos precisar de assessoramento também com textos em português”, afirmou o prelado, destacando que a língua constitui um elemento essencial para a formação, a sensibilização e a aplicação concreta das normas de proteção.

A língua, explicou, não é apenas um instrumento de comunicação, mas também um meio de compreensão cultural e pastoral. Este apelo insere-se num esforço mais amplo da Igreja para promover a inclusão e a participação plena de todas as comunidades linguísticas na missão de proteção e cuidado.

Esta preocupação encontra eco nas palavras do Papa Leão XIV, que recentemente recordou que a prevenção dos abusos não pode limitar-se a procedimentos técnicos, mas deve traduzir-se numa verdadeira transformação cultural. Segundo o Santo Padre, a missão da salvaguarda consiste em “contribuir para formar, em toda a Igreja, uma cultura do cuidado”, na qual a proteção dos menores e das pessoas vulneráveis seja entendida como expressão natural da fé.

A Iniciativa Memorare: um caminho de responsabilidade e cuidado

A Iniciativa Memorare surgiu como resposta concreta ao compromisso da Igreja de criar ambientes seguros para todos, especialmente para os mais vulneráveis. O programa promove a formação de comissões nacionais e diocesanas de salvaguarda, a elaboração de códigos de conduta e a implementação de procedimentos claros para prevenir abusos e responder adequadamente quando estes ocorrem.

No seu recente discurso aos membros da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores, o Papa Leão XIV reconheceu explicitamente o valor desta iniciativa, afirmando que o apoio oferecido às Igrejas locais, especialmente onde faltam recursos ou competências, constitui uma expressão concreta da solidariedade eclesial.

Dom Tonito explicou que, no caso de Moçambique, a prioridade atual consiste em fortalecer a Comissão Nacional de Salvaguarda e consolidar o trabalho das comissões diocesanas. Este processo inclui a divulgação das diretrizes pastorais revisadas em 2022, consideradas o documento fundamental para orientar a ação da Igreja neste campo.

Segundo o bispo auxiliar da Arquidiocese de Maputo, cada diocese é chamada a adaptar essas orientações à sua realidade pastoral, preparando códigos de conduta específicos para sacerdotes, agentes pastorais e colaboradores. Trata-se de um passo decisivo para transformar princípios em práticas concretas e duradouras.

Escuta das vítimas e responsabilidade pastoral

Outro elemento central destacado pelo Papa Leão XIV foi a importância da escuta das vítimas e dos sobreviventes, reconhecendo que as suas experiências são pontos de referência essenciais para a renovação da Igreja. O Santo Padre afirmou que, embora seja doloroso ouvir esses testemunhos, eles revelam a verdade e conduzem a Igreja a uma atitude de humildade e responsabilidade.

Neste sentido, a salvaguarda não é apenas uma resposta institucional, mas um caminho espiritual e pastoral que exige conversão contínua. Cada comunidade cristã é chamada a assumir a responsabilidade de proteger os mais vulneráveis e de criar ambientes seguros e acolhedores.

Esta visão coincide com a experiência vivida pelos participantes do encontro em Pretória, que destacaram a importância da formação e da partilha de experiências como instrumentos fundamentais para fortalecer a missão da Igreja.

Momentos do workshop Memorare da IMBISA, em Pretória
Momentos do workshop Memorare da IMBISA, em Pretória   (Sheila Pires, Joanesburgo (África do Sul))

Colaboração com as autoridades civis

Outro ponto destacado por Dom Tonito foi a necessidade de colaboração entre a Igreja e as autoridades civis. A proteção de menores e de adultos vulneráveis não pode ser realizada de forma isolada, mas exige a integração das políticas e das leis nacionais.

Dom Tonito sublinhou que, quando há indícios de crime, a Igreja tem a obrigação de informar as autoridades competentes, garantindo que a justiça seja respeitada e que as vítimas recebam o apoio necessário.

“Quando se trata de um crime, temos que reportar às autoridades locais”, afirmou, acrescentando que o conhecimento das leis e das políticas públicas é indispensável para uma ação eficaz no campo da salvaguarda.

Também neste ponto, o Papa Leão XIV recordou que a responsabilidade pela proteção dos menores e das pessoas vulneráveis não pode ser delegada, mas deve ser assumida diretamente pelos pastores e responsáveis das comunidades eclesiais. Trata-se de uma missão que atravessa toda a vida da Igreja, desde a formação até ao governo pastoral.

Um compromisso permanente com a proteção e a esperança

A experiência vivida durante o encontro em Pretória foi descrita por Dom Tonito como profundamente enriquecedora e marcada por um forte espírito de comunhão. O workshop permitiu reforçar a consciência de que a salvaguarda não é uma tarefa pontual, mas um compromisso permanente que exige vigilância, formação e conversão pastoral.

Ao mesmo tempo, Dom Tonito recordou que, mesmo em contextos de dificuldades — como as recentes cheias que afetaram várias regiões de Moçambique — a Igreja continua a encontrar sinais de esperança e renovação. Entre estes sinais, mencionou a ordenação de novos bispos e o crescimento das comunidades cristãs, que testemunham a presença de Deus no meio das provações.

À luz do ensinamento do Papa Leão XIV, cada passo dado na promoção da salvaguarda representa também um passo rumo a uma Igreja mais evangélica, transparente e credível. A Iniciativa Memorare, concluiu o prelado, constitui um instrumento essencial para fortalecer a responsabilidade partilhada e garantir que a Igreja continue a ser um espaço seguro, especialmente para os mais frágeis.

Oiça aqui a entrevista com Dom Tonito, e partilhe

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07 abril 2026, 12:36