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Yara Nakahanda Monteiro Yara Nakahanda Monteiro  

Yara Nakahanda Monteiro - Trânsitos culturais e territoriais

O romance, Esssa Dama Bate Bué, da angolana-portuguesa, Yara Nakahanda Monteiro, foi agora publicado em italiano e apresentado em várias cidades da Itália em fevereiro, durante o Black History Month. Razão para falar com ela da sua escrita e do seu ativismo, numa entrevista que se concluiu com a mensagem que deseja que Leão XIV deixe a Angola: espírito de união, fé, esperança, apoio aos jovens. Siga para conhecer outros pormenores do seu percurso, também através da crónica de Filinto Elísio.

Dulce Araújo - Vatican News 

O primeiro romance de Yara Nakahanda Monteiro chega aos leitores italianos oito anos depois da sua publicação em Portugal. Entretanto, foi traduzido para diversas outras línguas, revela a autora, considerando que o sucesso do romance se deve ao facto de falar duma "historia universal: origem, identidade, quem somos, donde viemos, para onde vamos”. Vitória, protagonista principal do livro, é a mais pequenina duma família que, como tantas, teve de deixar Angola no tempo da luta de libertação para se refugiar em Portugal, com tudo o que isso comportou. Em Angola ficou a mãe, combatente. Vitória volta anos depois à sua procura, à procura das suas raízes identitárias. Tudo isso se reflete também nas palavras de línguas angolanas que entremeiam a trama do romance. A edição italiana, contrariamente à portuguesa, traz um glossário, assunto que Yara enfrenta também na entrevista, enquadrando-o na questão do colonialismo linguístico e mostrando-se favorável à promoção das línguas nacionais, pois que são espelho da cultura e do modo de pensar dum povo. 

Yara se detém igualmente, a nosso pedido, sobre o nome Nakahanda que adotou em homenagem à trisavó e à sua ancestralidade, cuja procura e valorização está nas entrelinhas deste romance "100% ficção, 100% realidade", ao ponto de parecer quase um romance histórico. O certo - diz ela - é que traz um ponto de vista diferente da história oficial, pois vai beber tanto a fontes históricas gerais, como a fontes familiares. Além disso, põe em relevo o contributo das mulheres na luta de libertação e em relação às quais "não houve nenhum reconhecimento (...)."

A escrita é, portanto, para Yara Nakahanda Monteiro, o principal instrumento do seu ativismo que tem na mira também o combate ao grande problema humano que é racismo, algo que ela resume numa frase carregada de significado político: "sou trineta da escravatura, bisneta da mestiçagem, neta da independência, filha da diáspora".  Abraçando assim a problemática de várias gerações através do mundo, particularmente, Angola/Portugal, Yara vai avante convicta de que a literatura tem o grande poder de ajudar a construir um mundo melhor, onde todos possam conviver numa crescente harmonia, como a que vê em Kuala Lumpur (Malásia) donde nos fala e onde diz ver sinais encorajadores neste sentido. 

À baila, nessa entrevista, vem ainda a primeira e segunda Década dos Afrodescendentes que, teoricamente, deveria contribuir para um mundo que valorize o contributo dos afrodescendentes à humanidade e, consequentemente, a um mundo sem racismo. Porém, a Década foi e está a ser pouco divulgada. Porquê? Para Yara a pergunta é se há, realmente, vontade de combater o racismo. 

Por fim, e em vista da iminente viagem apostólica do Papa Leão XIV a quatro países da África, entre os quais, Angola, Yara exprime o desejo de que o Pontífice leve uma mensagem de união, fé, e sobretudo ajude a dar maior atenção à juventude. 

Oiça a entrevista e leia a crónica sobre o percurso literário e os temas que mais inquietam esta jovem escritora angolana/portuguesa, cidadã do mundo. 

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Crónica

"A escritora Yara Nakahanda Monteiro vive de trânsitos culturais e territoriais, confessando-se ela própria sentir Angola como mátria e Portugal como pátria. A sua escrita também está em trânsito e reflete as complexidades dos lugares e entre lugares, apanágio de quem se assume uma cidadã do mundo.

Yara Monteiro nasceu no Huambo (Angola) no ano de 1979, no seio de uma família que, em 1975, devido à guerra, fugiu do Bié. Depois, aos dois anos de idade, passou a viver em Portugal, na Margem Sul de Lisboa e já adulta mudou-se para o Alentejo, mais precisamente Alcácer do Sal onde, há mais de 500 anos, viveram africanos e descendentes de africanos, escravizados ou livres, e que trabalharam nas salinas e na agricultura.

É licenciada em Recursos Humanos, no Instituto Politécnico de Setúbal. Depois de licenciar-se, trabalhou algum tempo em Portugal, mas no fim da Guerra Civil Angolana regressou a Luanda, em 2005, onde trabalhou numa grande empresa petrolífera.

Quando fez o seu primeiro Bilhete de Identidade em Angola, ainda existia a classificação da raça, se negra, branca ou mestiça. Experimentou mais uma vez a tensão racial em si mesmo.

Parte deste percurso profissional levou-a a descobrir a sua identidade africana fora de Portugal e de Angola. No Brasil, apesar de estar com a vida profissional bastante organizada, começou um processo de autodescoberta que passou exatamente pela análise interior.

Autodefine-se como trineta da escravatura, bisneta da mestiçagem, neta da independência e filha da Diáspora, que descobriu a sua negritude no Brasil. E foi nesse país que, em 2015, abandonou a vida empresarial para se dedicar à escrita.

Formou-se também em guionismo pela ACT – Escola de Autores (de Lisboa) e em Arte Contemporânea pela Sotheby’s (de Londres).

Em 2018, publicou o seu primeiro romance, Essa Dama Bate Bué! O livro conta a história de Vitória Queiroz da Fonseca, uma jovem angolana que, como Yara, nasceu em Angola e cresceu em Portugal. A certa altura, Vitória abandona um casamento às vésperas para voltar a Luanda à procura de sua mãe, uma ex-Combatente da Liberdade da Pátria Angolana que a entregou aos avós quando bebé. É um livro que tem o grande mérito de problematizar a participação da mulher angolana na construção da luta e da nova nação a partir de várias funções, para além da de guerrilheira.

Foi conferencista na série de debates e painéis do evento African-European Narratives 2018-2019, organizado pela Universidade Nova de Lisboa, no âmbito do Programa "Europa para os Cidadãos" da União Europeia.

Em 2020, fez parte de Contos de Lisboa, exposição antológica no Arquivo Municipal de Lisboa - Fotográfico com Djaimilia Pereira de Almeida, Kalaf Epalanga, Ondjaki e Telma Tvon.

Em 2022, ganhou o Prémio Literário Glória de Sant’Anna, com o livro de poemas Memórias, aparições e arritmias, publicado em 2021. E, em 2023, foi nomeada para o Dublin Literary Award 2023 com o livro Essa Dama Bate Bué! cuja tradução para inglês é ​"Loose Ties".

Escrevendo a escravatura, o colonialismo, a independência, a mestiçagem e a diáspora, Yara Monteiro faz dos trânsitos culturais e territoriais a causa da sua libertação."

Filinto Elísio - Poeta, ensaísta, editor (Rosa de Porcelana Editora) 

Yara Nakahanda Monteiro, foi entrevistada para o programa "África em Clave Cultural: personagens e eventos" do dia 26/2/26. Pode ouvir a emissão em baixo. 

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03 março 2026, 16:52