O Leste de Angola aguarda com a sua rica cultura a visita do Papa
Dulce Araújo - Vatican News
Na iminência da viagem apostólica do Papa Leão XIV a quatro países da África, entre os quais Angola, com etapas em Luanda, Muxima e Saurimo, o programa semanal da Rádio Vaticano, “África em Clave Cultural: personagens e eventos” dirigiu o olhar para Saurimo, capital da Lunda Sul, Leste de Angola, região que será, pela primeira vez, visitada por um Papa, pois que, nas precedentes visitas do Papa João Paulo II, em 1992, e de Bento XVI, em 2009, não fora contemplada.
Um olhar na companhia de dois peritos culturais
Um olhar cultural lançado na companhia de Domingos Afonso Mukulo, Conservador da História e Cultura dos povos lunda-chokwe e de Melânia Caiva Songó, Engenheira eletromecânica, curiosa e apaixonada pelo trabalho comunitário, de modo particular com as mulheres. Ela é diretora da Associação Mwana Pwo que se ocupa de questões ligadas à situação das meninas hoje na região, onde o fenómeno das gravidezes precoces é relevante. Através de pesquisas, a Associação detetou as causas (falta de informação e influências diversas) e estabeleceu estratégias para as combater, servindo-se particularmente da máscara ancestral, Mwana Pwo, para establecer positivamente uma ligação entre o passado e o presente, favorecendo o melhoramento da situação das meninas e mulheres de hoje na região. O lema é “Mwana Pwo, transformando mulhers jovens em líderes”.
Criada em 2016, a Associação comemora este ano o décimo aniversário com um balanço positivo: superou-se o tabu relativo à saúde sexual e reprodutiva; a taxa de gravidezes precoces diminuiu em cerca de 15%; há muita adesão dos pais à filosofia da Associação e boa participação das jovens nas atividades; a Associação já estendeu as sua atividades a outras partes do país e, para o futuro imediato, conta debruçar-se sobre as desigualdades socioeconómicas que afetam mulheres especialmente nas zonas mineiras da região. Graças a apoios financeiros do governo de Angola, do UNICEF e da FNUAP, a Associação tem levado a cabo as suas atividades e espera poder contar com mais apoios para prosseguir em frente - refere Melânia Caiva Songó. Quanto à visita do Papa a Saurimo, ela considera que será um momento de júbilo e uma grande oportunidade para trazer à tona questões ligadas aos direitos da mulher.
Também Domingos Afonso Mukulo considera a visita do Papa a Saurimo uma benção para esse povo. "Significa que Deus está do nosso lado" - afirma numa conversa em que ilustra os aspetos principais da cultura lunda-chokwe, desde a língua, às danças, à tipica hospitalidade do povo, porque embora se fale tanto de Mwana Pwò, ela não é o único símbolo dessa cultura, cujo legado fazem questão de conservar e transmitir aos jovens para que saibam quem são, onde estão e para onde vão.
Ações concretas de transmissão da cultura autoctone
Para tornar concreta essa transmissão, fazem encontros com os jovens e se servem da comunicação social, particularmente os da Igreja que, como de resto, também os governantes, constituem um estímulo nesta tarefa. Resta dar o passo da inserção oficial da cultura autóctone como matéria nos currículos educativos - sublinha Mukulo. Mas, nem a Igreja nem o Estado se opõe ao facto de realizarem com os jovens os tradicionais ritos de iniciação, desde que seja numa ótica positiva e respeitem o calendário escolar. O certo é que poucos jovens escapam a esses ritos que são obrigatórios para meninas e rapazes na região e constituem um sistema de educação melhor do que qualquer outro - considera o Domingos. Para ele, o critério de avaliação do que pode ser transmitido é o respeito mútuo, a moral, a identidade cultural, a deontologia. É que as tradições culturais podem apresentar, por vezes, elementos a ser adaptados ou banidos e Domingos Mukulo recorda que os povos lunda-chokwe abandonaram, por exemplo, a prescrição de se casarem apenas entre si mesmos.
Instado a revelar se vão ser protagonistas de alguma exibição cultural para o Papa, Domingos Mukulo diz que estão ainda em contacto com a Igreja. E à observação de que estão, talvez, um pouco atrasados, sorrindo, responde que culturalmente estão sempre prontos. E quanto a um eventual presente ao Santo Padre, “não se revela, é surpresa” - responde.
O poeata, ensaísta e editor, Filinto Elísio (Rosa de Porcelana Editora) tece na sua crónica interessantes considerações sobre "O itinerário do Papa por África e o signo da cultura e da espiritualidade"
Crónica
Dez dias, de 13 a 23 de abril, será o itinerário do Papa Leão XIV por África, continente onde o catolicismo cresce mais rapidamente, num quadro que revela o aumento 2 milhões de fiéis em 1900 para 140 milhões em 2000, a ponto de ser olhado como o "futuro" da Igreja Católica, representando hoje 20,8% dos católicos do mundo. Para 2050, em parte por ser o continente mais jovem do planeta, as projeções apontam para 350 milhões de fiéis.
Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial são os países que constam da peregrinação papal. Tendo já visitado a África, quando Prefeito do Dicastério para os Bispos, e antes, como Prior da Congregação Agostiniana, esta viagem do Papa XIV representa um sinal de forte valor pastoral e simbólico, destinado a fortalecer os laços entre a Santa Sé e as Igrejas africanas.
Fato importante é a diversidade cultural presente no continente africano, onde cerca de 3.000 idiomas diferentes são falados nos 57 países ou várias regiões e o património cultural, material e imaterial, é um contributo vibrante para as Humanidades e para o diálogo harmonioso com o mundo. Isto nos interpela a abordar a valorização das raízes culturais africanas como fator de identidade e de desenvolvimento, no contexto desta viagem do Papa.
Tomando a peregrinação do Papa Leão XIV por África, vemos a questão cultural como fator de diálogo harmonioso com a própria Igreja Católica, pela forte componente de espiritualidade que inspira toda a produção cultural africana, especialmente nas suas manifestações artísticas.
Durante a passagem por Angola, para além de uma programação que incluirá atos oficiais e pastorais a Luanda e a Muxima, o Santo Padre visitará Saurimo, uma cidade que registou um crescimento exponencial da população devido aos numerosos migrantes que fugiram das áreas de guerra. A população da cidade, assim como todo o leste de Angola, é constituída por muitos grupos etnolinguísticos, principalmente os lunda-chócues e luvales, além de pequenas minorias ovimbundas e ambundas.
O povo chócue uma faz parte do alargado povo bantú que se concentra sobretudo no nordeste de Angola e numa larga faixa que abrange o extremo sudoeste da República Democrática do Congo e o extremo noroeste da Zâmbia, tem as famosas máscaras; as máscaras. As máscaras artísticas e rituais de grande importância cultural, representando espíritos ancestrais (mukishi), fertilidade e valores sociais. Feitas principalmente de madeira, com destaque para a Mwana Pwo (beleza feminina) e Txihongo (poder masculino), elas são usadas por homens em danças e cerimónias de iniciação (mukanda).
Estas máscaras, em madeira, resinas e fibra, não são apenas arte, mas mediadoras entre o mundo dos vivos e dos mortos, garantindo a ordem espiritual, social, educando jovens e trazendo fertilidade.
Cada máscara, que transita de geração em geração, tem um significado único e uma significação religiosa e ancestral, para além de se relacionarem com a música, a dança e rituais vários, como os de iniciação, colheita, nascimentos, casamentos, falecimentos, guerra, paz, cura e outras situações.
Durante a passagem do Papa Leão XIV por Camarões e por Guiné-Equatorial, será também ocasião de abordar as máscaras Fang, ferramentas de conexão com o universo espiritual. É através delas que o povo Fang cria um elo com arquétipos, divindades e ancestrais. Essas máscaras eram pintadas de branco, possuíam rosto longo e nariz fino.
Os Fang são um grupo étnico bantu originário do interior da área continental da Guiné Equatorial, na região do rio Muni, encontrando-se também no Gabão e nos Camarões, e sendo atualmente o grupo étnico mais numeroso na Guiné Equatorial e um dos mais no Gabão.
A máscara africana é, dessa forma, importante elemento de identidade cultural de cada povo, atestando a riqueza e a complexidade do património cultural da África, húmus da sua Humanidade e fator do seu Desenvolvimento.
A viagem do Papa Leão XIV à África, o mais ancestral e o mais jovem continente, que almeja um dia acolher a Jornada Mundial da Juventude, será certamente jubilosa, enriquecedora e fascinante, sob o signo da fé, da espiritualidade e da Cultura, o húmus do Desenvolvimento Humano.
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