Guiné-Bissau. Bispos: “Construir uma Igreja sinodal ao serviço da justiça e da paz”
Por Elisângila Silva Santos Camara – RSM, Bissau
O apelo consta de uma Exortação para a Quaresma de 2026, assinada em Tambacounda, no Senegal, a 16 de novembro de 2025, no âmbito da Conferência Episcopal que reúne os quatro países.
Inspirada pelo Sínodo sobre a Sinodalidade e pela 5.ª Assembleia Geral das Conferências Episcopais Reunidas da África Ocidental (CERAO), realizada em Dakar, em maio de 2025, a mensagem quaresmal propõe a construção de uma Igreja sinodal e autónoma, ao serviço do bem comum, para a promoção da justiça e da paz.
Segundo os bispos, a Quaresma não deve ser vivida apenas como um exercício individual de piedade, mas como um tempo favorável para renovar o compromisso da Igreja com as realidades concretas dos povos africanos.
“A Quaresma, caminho comunitário de esperança, longe de ser um simples exercício individual de piedade, é um tempo privilegiado de conversão pessoal e comunitária. Ela interpela-nos: as nossas Igrejas locais, enraizadas nas nossas culturas, são capazes de tomar decisões adequadas às nossas realidades, de contribuir para o seu autossustento e de gerir os seus recursos com transparência? Estão determinadas a iniciar ações pastorais e sociais pertinentes para aliviar a precariedade humana e responder às aspirações do povo de Deus no caminho da esperança?”, lê-se no documento.
No centro da Exortação está o apelo a uma Igreja sinodal, capaz de “caminhar junta”, escutando o Espírito Santo que se manifesta na Palavra de Deus, no clamor dos pobres, nas angústias dos jovens, nas dificuldades das famílias e na situação dos migrantes e das pessoas em situação de precariedade.
Os bispos sublinham que a diversidade de vocações, carismas e ministérios é uma riqueza que deve fortalecer a comunhão e a missão da Igreja.
O documento destaca ainda o serviço do bem comum como um dever evangélico. Segundo a Exortação, o tema deste ano vai ao encontro das aspirações profundas dos povos da região: promover, na Igreja e na sociedade, uma autonomia integral que permita viver juntos na dignidade, na justiça, na paz e na fraternidade.
Os prelados recordam que o amor a Deus e ao próximo exige um compromisso concreto com a verdade, a justiça, a transparência, a solidariedade e o respeito pela dignidade humana. Este apelo é dirigido de modo especial aos cristãos envolvidos na vida pública, chamados a testemunhar a fé através de uma conduta ética e de um serviço desinteressado à sociedade.
Outro ponto central da Exortação é a busca da autonomia das Igrejas locais, sobretudo no plano financeiro. De acordo com os bispos, a autonomia é sinal de maturidade eclesial e condição para um testemunho livre do Evangelho, sem dependências excessivas de ajudas externas. Para isso, defendem uma governação responsável, solidária e transparente, enraizada na cultura do dom e da corresponsabilidade.
Num contexto marcado por tensões, violências e desigualdades, os bispos reafirmam a missão profética da Igreja na promoção da justiça e da paz, sendo uma voz que apela à verdade e à reconciliação. Citando a passagem bíblica de Mateus (Mt 5,9), recordam: “Felizes os construtores da paz, porque serão chamados filhos de Deus”.
Os bispos convidam os fiéis a rejeitar a violência, a mentira, a vingança, a corrupção e o ódio, optando pelos caminhos do diálogo, do perdão e da reconciliação. Ao mesmo tempo, saúdam os esforços das autoridades civis, das comunidades religiosas e de todos os homens e mulheres de boa vontade que trabalham pela paz e pela segurança na região.
Os prelados pedem ainda que, nas comunidades, se reze por eles e por todos aqueles que sofrem por causa da violência, da injustiça ou da precariedade.
A Exortação termina com um forte apelo à conversão quaresmal, vivida através da oração, do jejum e da partilha, especialmente em favor dos pobres, dos doentes, dos presos, dos migrantes e dos excluídos.
Os bispos confiam os países à intercessão da Virgem Maria, Rainha da Paz, e exprimem a esperança de que este caminho comum seja sinal de transformação e de esperança para África e para o mundo.
Na mesma carta, os bispos da Guiné-Bissau, do Senegal, da Mauritânia e de Cabo Verde recordam que as Igrejas acabam de viver o Sínodo sobre a Sinodalidade e que, ao nível local, os fiéis partilharam, dialogaram e rezaram sobre a vontade comum de caminhar juntos e de fazer Igreja, apesar da diversidade de pontos de vista e de interesses.
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