Amélia Sanches Araújo - aos microfones da Rádio Libertação, em Conacri,  nos anos sessenta. Amélia Sanches Araújo - aos microfones da Rádio Libertação, em Conacri, nos anos sessenta.  

Amélia Araújo: Uma voz que continua a falar para além dos tempos

Faleceu a 19/2/2026, na cidade da Praia, em Cabo Verde, a antiga combatente pela libertação da Guiné-Bissau e de Cabo Verde do jugo colonial, Amélia Sanches Araújo. Tinha 92 anos. Era conhecida como "a voz da luta" por ter sido, durante a luta, locutora da "Rádio Libertação". Em 2004, no contexto do Simpósio por ocasião dos 80 anos de nascimento de Amílcar Cabral, concedera uma entrevista à Rádio Vaticano em que falava desse grande líder e contava a história da sua adesão à luta de libertação.

Dulce Araújo - Vatican News

Amélia Araújo aderira à luta, juntamente com o marido, José Araújo, em 1961, ano em que fugiram de Portugal para Conacri, onde ela trabalhou, primeiro, no Secretariado do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde), depois na Rádio Libertação e seguidamente na Escola Piloto nas zonas libertadas da Guiné-Bissau.

Numa entrevista concedida à Rádio Vaticano, em setembro de 2004, por ocasião do Simpósio Internacional, organizado na capital cabo-verdiana pela Fundação Amílcar Cabral, para marcar os 80 anos de nascimento desse grande líder, Amélia Araújo disse que admirava muito o lado humano de Amílcar. Para ela tratava-se de um homem simpático, afável e grande dirigente, muito respeitado por todos. “Sabia o nome de todos” e fazia questão que os outros fossem nessa linha.

Amílcar Cabral, maior colaborador da Rádio Libertação

Amélia referiu ainda que Amílcar Cabral era um dos maiores colaboradores da Rádio Libertação com os seus editoriais que “tiveram um grande impacto no seio sobretudo dos portugueses na Guiné”. Havia - disse - o “Programa do Soldado Português” para os desincentivar à luta e em que muitos desertores portugueses foram mesmo entrevistados. Outro programa de relevo na Rádio Libertação, era o de informação sobre o que se passava nas diversas frentes de combate, por forma a incentivar os soldados do PAIGC a continuar a luta.

Os programas radiofónicos, que eram difundidos em português, crioulo e nas outras principais línguas da Guiné-Bissau, tiveram grande impacto na difusão do crioulo em todo o território guineense e no favorecimento da unidade nacional. 

Filha de pai cabo-verdiano e mãe angolana, Amélia Araújo foi recrutada para a luta por José Araújo, com o qual se casou em finais de 1960, uma história que nos contou em setembro de 2004 no então programa “África. Vozes Femininas”. 

Pagar uma promessa a Nossa Senhora de Lourdes 

Como não podia fugir para Conacri com o marido e outros companheiros por ter uma filha de poucos meses, Amélia decidiu pedir um visto para a França, alegando que ia pagar uma promessa a Nossa Senhora de Lourdes. Dali, continuou a viagem e chegou a Conacri, vivendo os anos de luta que levaram à independência da Guiné e de Cabo Verde. O momento mais difícil - recordou ela - foi quando assassinaram Amílcar Cabral (20/1/1973). Mas a luta continuou com muitas vitórias. "Acho que ele estava sempre connosco, estava sempre ao nosso lado, apesar desse hediondo crime, que ele não merecia."

Outro momento que Amélia recordava com emoção era o da Independência, o "reconhecimento dos povos", o que permitiu entrar na segunda fase da luta, a da "reconstrução do país". 

Orgulhosa e grata por ter tido a oportunidade de participar nessa luta, Amélia Araújo mostrou-se convicta de que a luta valeu a pena, embora lamentasse na altura (poder-se-ia dizer também hoje), particularmente pela situação na Guiné-Bissau, povo que “sofreu muito”, salientou. 

Transmitir a história da luta às jovens gerações

Quanto à perceção que as novas gerações têm dos tempos da luta e da sua importância, Amélia Araújo sublinhava que talvez não estejam bem informados mas, "a culpa é nossa, não gostamos muito de falar de nós, é mau, devemos transmitir o que vivemos aos jovens para que se impregnem de valores de patriotismo e da vontade de fazer alguma coisa para a sua terra" - rematou. 

Recordamos e homenageamos Amélia Araujo, pondo à disposição essa emissão de setembro de 2004, com as suas palavras.

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Amélia Sanches Araújo
Amélia Sanches Araújo

 

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21 fevereiro 2026, 14:56